25 de março de 2016

SERRA DE MARACAJU - MEU EIXO DE MUNDO, MEU CASTELO INTERIOR, O MONTE SINAI DO MEU SER - UM TEXTO DA PROFESSORA, ESCRITORA RAQUEL NAVEIRA. CONFIRA,

SERRA DE MARACAJU - MEU EIXO DE MUNDO, MEU CASTELO INTERIOR, O MONTE SINAI DO MEU SER.

 
 
 

 
Quando o avião pousa no solo de minha cidade, Campo Grande, sinto uma emoção, um ar diferente, misto de éter e força. É como se houvesse mais segurança, uma verdade profunda, um retorno ao princípio. Comentei isso com o mestre Campestrini e ele ponderou: “ - Não é apenas uma sensação. É real. São os fluídos da Serra de Maracaju.”
Essa serra, com sua cadeia de montanhas, picos e quebradas, divide o sul de Mato Grosso em dois: a oeste, a capital e a leste, os campos de cerrado e vacaria, o início do Pantanal. São rochas de basalto e arenito, antigos derrames vulcânicos que escoaram pelas bacias dos rios, pelos verões úmidos e chuvosos. Os europeus, em antigas balizas, pensavam tratar-se dos lagos e mares de Xaraés.
 
Este ponto é meu eixo de mundo, meu castelo interior, o monte Sinai do meu ser. Aqui sou guiada pelo Sol e pela Lua. Tenho os jardins de uma rainha, cheio de antúrios e figueiras. Aqui sacrifiquei o meu Isaque: alguns sonhos e cordeiros que se espalharam na bruma.

 
E por que “Maracaju”? Em guarani “maracaju” significa “chocalho amarelo”. O chocalho na ponta da cauda da cascavel. A serpente balança os guizos e anéis de pele, pronta para dar o bote, chiando, os losangos do corpo inflando e desinflando de ira. O barulhinho pavoroso serve de alerta para os que andam pelas trilhas da serra.

Almir Sater, numa linda canção, lembra de um velho índio que lhe contou histórias de glórias e tragédias; que viu deuses descendo de estrelas, antes da invasão dos portugueses, dos espanhóis, dos bandeirantes e mineiros. Ele é menestrel que quer descobrir lendas e memórias, tocar e compor seus próprios chamamés, traduzir os mistérios da Serra de Maracaju.

 
Muito antes de Sater, quem cantou as belezas da Serra de Maracaju foi o precursor de nossa literatura: o Visconde de Taunay. Foram as contingências da cruenta Guerra do Paraguai que deram à sensibilidade do escritor a oportunidade de observar a vida, a paisagem e os costumes mato-grossenses. Das anotações desse jovem tenente do imperador D. Pedro II, surgiram duas obras-primas: Inocência, romance peregrino, situado na melhor ficção regionalista de todos os tempos e  Retirada da Laguna, relato pungente sobre a bravura de homens numa batalha desigual contra o inimigo implacável e a natureza hostil. Depois, Otávio Gonçalves Gomes, poeta e historiador, escreveu Mato Grosso do Sul na Obra de Taunay e contou sobre o momento em que Taunay, junto do rio Aquidauana, numa ramificação da Serra de Maracaju, deparou-se com aquela paisagem grandiosa e fantástica: os arcos naturais, as esculturas cinzeladas nos maciços.

 
Viu o sol batendo nos “píncaros e planos desnudados de vegetação, de um colorido vermelho”, cheio de clarões e chispas de fogo. Descreve ainda, nas matas fechadas, os festões de flores pelos declives, pelos aparados da serra, embelezando os caminhos de anta e animais silvestres. O Morro Azul, atalaia do rio Aquidauana, “cesto de gávea avistado de todos os lados”. E também a cortina de árvores possantes, colossos de corpulências. As cascatinhas pelos córregos, deslizando pelos penedos. Quanto deslumbramento.
 
 
Nosso chão já foi chamado de Estado de Maracaju. Esse foi o nome dado à criação revolucionária dos que primeiro desejaram a divisão de Mato Grosso, a independência e separação de Cuiabá. O Estado de Maracaju existiu de fato, sem autorização da União, de 10 de julho a 2 de outubro de 32, durante a Revolução Constitucionalista.

Teve como governador Vespasiano Barbosa Martins. O sul de Mato Grosso apoiou a causa paulista na pessoa do general Klinger. Com o fim da revolução e a vitória de Getúlio Vargas, o Estado de Maracaju foi dissolvido. Estava lançada a semente embrionária do Mato Grosso do Sul, que só nasceu oficialmente no dia 11 de outubro de 77. A loja maçônica que serviu como Palácio Maracaju, sede dos divisionistas, está ali, com suas colunas clássicas fincadas na rua Calógeras, carregadas de História.
Percebi, aliviada, que o avião pousou no monte, no topo, onde há conhecimento, revelações e saída para outro cosmos. Ouço a voz do velho mestre: “ - São os fluídos da Serra de Maracaju”.
 
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UM POUCO SOBRE A AUTORA DO TEXTO:
 
SERRA DE MARACAJU - MEU EIXO DE MUNDO, MEU CASTELO INTERIOR, O MONTE SINAI DO MEU SER.
 
RAQUEL NAVEIRA
 


 
 
 
Raquel Naveira nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. É formada em Direito e Letras pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB/MS), onde exerceu o magistério superior, desde 1987 até 2006, quando se aposentou. Doutora em Língua e Literatura Francesas pela Universidade de Nancy, França. Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP).
 
Apresentadora do programa literário “Prosa e Verso” pela TV UCDB (2000-2006) e do “Flores e Livros” pela UP TV e pela ORKUT TV. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras de São Paulo e ao Pen Clube do Brasil. Diretora da União Brasileira de Escritores/Seção SP. É palestrante, dá cursos de Pós-Graduação e oficinas literárias.

 
Escreveu vários livros, entre eles: Abadia (poemas, editora Imago,1996) e Casa de Tecla (poemas, editora Escrituras, 1999), finalistas do Prêmio Jabuti de Poesia, da CBL.

Os mais recentes são o livro de ensaios Literatura e Drogas - e Outros Ensaios (Nova Razão Cultural, 2007), o de crônicas Caminhos de Bicicleta (Miró, 2010) e o de poemas Sangue Português: raízes, formação e lusofonia (Arte&Ciência, 2012). É colaboradora do Portal Top Vitrine desde abril de 2014.
 
 


 
HISTÓRIA DA SERRA DE MARACAJU

 
A Serra de Maracaju é uma serra que divide o estado do Mato Grosso do Sul em dois, a oeste da capital, Campo Grande. A leste ficam os campos de cerrado, enquanto se inicia, a oeste, o Pantanal sul-matogrossense. As maiores altitudes da serra estão por volta de 750m, nas proximidades do município de Aquidauana. A composição rochosa basicamente é formada por arenito. Esse tipo de material também pode ser encontrado na Serra de Botucatu no estado de São Paulo, uma vez que o município paulista compõe parte da vertente oriental da Bacia Hidrográfica do Rio Paraná.

 
Entre Campo Grande e Corumbá, na BR 262, há grandes paredões de arenito.
 
A composição rochosa basicamente é formada por basaltos cretáceos da formação serra geral (antigos derrames vulcânicos). A serra pode ser identificada como o divisor de águas entre as bacias dos Rios Paraná e Paraguai, passando sempre pelas cotas mais altas do derrame basáltico.
No sentido Sul-Norte a serra entra no Estado de Mato Grosso do Sul vindo do Paraguai, e passa pelos municípios de Antonio João, seguindo pela MS-166, passa no município de Maracaju, depois segue pela BR-060 passando pelo município de Sidrolândia, continua pela BR-060 até Campo Grande a partir daí segue-se pela BR-163 passando por Jaraguari, Bandeirantes, pela localidade chamada Posto São Pedro e finaliza em São Gabriel, onde já não divide mais as duas bacias e finaliza o derrame basáltico.
Seguindo-se esse roteiro, nota-se que sempre haverá queda abrupta de altitude no lado Oeste, na maioria das vezes mostrando as escarpas da serra, já para o lado Leste fica o planalto. As cotas de altitude variam de 200 a 400 metros na parte de baixo da serra e de 500 a 700 na parte de cima.
 
No sentido Leste-Oeste a serra serve como divisor natural entre Paraguai e Brasil Passando pelos municípios de Mundo Novo, Japorã, Sete Quedas e Paranhos. No país vizinho ela corta cidades como Salto del Guairá, Corpus Christi, Villa Ygatimí, YpeJhú e Itanará onde é conhecida como Sierra de Maracayú.
 

 
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SERRA DE MARACAJU - ALMIR SATER
 
 

 
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FONTE:
 
 


 
 




BURCA
 

Raquel Naveira (MS)

 


Há uma mulher por dentro da burca,

estranha veste que envolve o corpo

como um capuz, um casulo,

um enorme grão.

 

A mulher por dentro da burca

espia o mundo

por uma janela quadriculada,

vê sem ser vista, boca calada.

 

A mulher por dentro da burca

busca a estrada,

a repisada trilha dos camelos

rumo ao oásis,

mas seu caminho se bifurca

entre o amor e a morte.

 

A mulher por dentro da burca

é vulcão.

Em suas mãos,

em sua nuca,

escorre lava quente;

gota de fogo é o seu coração.

 

A mulher por dentro da burca

tem algo de verme,

de serpente,

de pássaro.

É feita de neblina

a sua face triste.

 

Por dentro da burca

o medo sufoca,

a mulher segue a procissão

com passos lentos,

não permaneceria imóvel

assistindo à procissão passar.

 

Por dentro da burca

a opressão enforca.

A mulher,

de costas viradas ao sol,

enxerga sua sombra.

 

Por dentro da burca

a louca caminha pela praia,

a maré alta apagará suas pegadas.

 

A burca azulada como o céu

torna a mulher invisível.

 

 

BURQA

tradução de Neide Barros Rêgo

 

Estas virino ene de la burqa,

stranga vesto, kiu kovras ŝian korpon,

kiel kokono

aŭ granda grajno.

 

Ene de tiu stranga vesto,

tra fenestreto kovrita per vualo,

ŝi gvatas la mondon

vidante ne vidate

kaj dirante nenion.

 

La virino ene de la burqa

serĉas vojon tretitan de kameloj

direkte al oazo,

sed ŝia vojo disduiĝas

inter amo kaj morto.

 

La virino ene de la burqa

estas vulkano.

En ŝiaj manoj,

en ŝia nuko,

fluas varmega lafo;

kaj ŝia koro estas gut’ el fajro.

 

La virino ene de la burqa

havas iom de vermo,

de birdo,

de serpento.

Ŝia trista vizaĝo 

estas farita el nebulo.

 

Ene de la burqa,

la timo ŝin sufokas.

Ŝi akompanas la procesion

kun lantaj paŝoj.

Ŝi ne restus senmova

spektante la pasantan procesion.

 

Ene de la burqa,

la tiraneco premas ŝian koron.

Dorse al la suno

ŝi rigardas sian ombron. 

 

Ene de la burqa,

ŝi fole piediras sur la plaĝo,

kie la tajdo forviŝos ŝiajn piedsignojn.

 

La ĉiela koloro de la burqa

igas tiun virinon nevidebla.

 


"Burca" de Raquel Naveira em Português e Esperanto. Poesia enviada gentilmente pela poetisa, diretora do Centro Cultural Maria Sabina em Niterói, Neide Barros Rêgo.
Na oportunidade adquira a Antologia, bilíngue "POESIAS ESCOLHIDAS DO BRAZILA ESPERANTA PARNASO", o poema encontra-se nas duas línguas: esperanto e português. Esta antologia bilíngue foi lançada na Bienal do Livro, no Rio de Janeiro em 2007.

Os nossos sinceros agradecimentos à poetisa Neide Barros pela sua importante participação.

Alberto Araújo.

 
 
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