1 de setembro de 2019

BÍBLIA SAGRADA É CELEBRADA EM TODO O MÊS DE SETEMBRO.



Lâmpada para os meus pés é tua palavra, 
e luz para o meu caminho.

Salmos 119:105





A BÍBLIA SAGRADA – o livro mais lido, traduzido e distribuído no mundo desde as suas origens, foi considerada sagrada e de grande importância. E, como tal, deveria ser conhecida e compreendida por toda a humanidade. A necessidade de difundir seus ensinamentos, através dos tempos e entre os mais variados povos, resultou em inúmeras traduções para os mais variados idiomas. 

Hoje é possível encontrar a Bíblia, completa ou em porções, em mais de 2.527 línguas diferentes (levantamento de dez/2010).


OS ORIGINAIS

Os originais da Bíblia são a base para a elaboração de uma tradução confiável das Escrituras. Porém, não existe nenhuma versão original de manuscrito da Bíblia, mas sim cópias de cópias. Todos os autógrafos, isto é, os livros originais, como foram escritos por seus autores, se perderam. As traduções confiáveis das Escrituras Sagradas baseiam-se nas melhores e mais antigas cópias que existem e que foram encontradas graças às descobertas arqueológicas.
Grego, hebraico e aramaico. Esses foram os idiomas utilizados para escrever os originais das Escrituras Sagradas.


ANTIGO TESTAMENTO

A maior parte foi escrita em hebraico e alguns textos em aramaico.




NOVO TESTAMENTO


Foi escrito originalmente, em grego, que era a língua mais utilizada na época.

Para a tradução do Antigo Testamento, a SBB utiliza a Bíblia Stuttgartensia, publicada pela Sociedade Bíblica Alemã. Já para o Novo Testamento, é utilizado The Greek New Testament, editado pelas Sociedades Bíblicas Unidas. Essas são as melhores edições dos textos hebraicos e gregos que existem hoje, disponíveis para tradutores.


ANTIGO TESTAMENTO HEBRAICO


Muitos séculos antes de Cristo, os escribas, sacerdotes, profetas, reis e poetas do povo hebreu mantiveram registros de sua história e de seu relacionamento com Deus. Esses registros tinham grande significado e importância em suas vidas e, por isso, foram copiados muitas vezes, e passados de geração em geração.

Com o passar do tempo, esses relatos sagrados foram reunidos em coleções conhecidas por:

A LEI
Composta pelos livros de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.

OS PROFETAS
Incluíam os livros de Isaías, Jeremias, Ezequiel, os Doze Profetas Menores, Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Reis.

AS ESCRITURAS
Reuniam o grande livro de poesia, os Salmos, além de Provérbios, Jó, Ester, Cantares de Salomão, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Daniel, Esdras, Neemias e 1 e 2 Crônicas.

Esses três grandes conjuntos de livros, em especial o terceiro, não foram finalizados antes do Concílio Judaico de Jamnia, que ocorreu por volta de 95 d.C.

Os livros do Antigo Testamento foram escritos em longos pergaminhos confeccionados em pele de cabra e copiados cuidadosamente pelos escribas. Geralmente, cada um desses livros era escrito em um pergaminho separado, embora A Lei frequentemente, fosse copiada em dois grandes pergaminhos. O texto era escrito em hebraico da direita para a esquerda e, apenas alguns capítulos, em dialeto aramaico.

Hoje se tem conhecimento de que o pergaminho de Isaías é o mais remoto trecho do Antigo Testamento em hebraico. Estima-se que foi escrito durante o século II a.C. e se assemelha muito ao pergaminho utilizado por Jesus na Sinagoga, em Nazaré. Foi descoberto em 1947, juntamente, com outros documentos em uma caverna próxima ao Mar Morto.


NOVO TESTAMENTO GREGO


Os primeiros manuscritos do Novo Testamento que chegaram até nós são algumas das cartas do Apóstolo Paulo, destinadas a pequenos grupos de pessoas de diversos povoados que acreditavam no Evangelho por ele pregado. A formação desses grupos marca o início da igreja cristã.

As cartas de Paulo eram recebidas e preservadas com todo o cuidado. Não tardou para que esses manuscritos fossem solicitados por outras pessoas. Dessa forma, começaram a ser largamente copiados e as cartas de Paulo passaram a ter grande circulação.

A necessidade de ensinar novos convertidos e o desejo de relatar o testemunho dos primeiros discípulos em relação à vida e aos ensinamentos de Cristo resultaram na escrita dos Evangelhos que, na medida em que as igrejas cresciam e se espalhavam, passaram a ser muito solicitados. Outras cartas, exortações, sermões e manuscritos cristãos similares também começaram a circular.

O mais antigo fragmento do Novo Testamento hoje conhecido é um pequeno pedaço de papiro escrito no início do século II d.C. Nele estão contidas algumas palavras de João 18.31-33, além de outras referentes aos versículos 37 e 38. Nos últimos 100 anos descobriu-se uma quantidade considerável de papiros contendo o Novo Testamento e o texto em grego do Antigo Testamento.


OUTROS MANUSCRITOS


Além dos livros que compõem o nosso atual Novo Testamento, havia outros que circularam nos primeiros séculos da era cristã, como as Cartas de Clemente, o Evangelho de Pedro, o Pastor de Hermas, e o Didache (ou Ensinamento dos Doze Apóstolos).

Durante muitos anos, embora os evangelhos e as cartas de Paulo fossem aceitos de forma geral, não foi feita nenhuma tentativa de determinar quais dos muitos manuscritos eram realmente autorizados. Entretanto, gradualmente o julgamento das igrejas, orientado pelo Espírito de Deus, reuniu a coleção das Escrituras que constituíam um relato mais fiel sobre a vida e ensinamentos de Jesus. No Século IV d.C. foi estabelecido entre os concílios das igrejas um acordo comum, e o Novo Testamento foi constituído.

Os dois manuscritos mais antigos da Bíblia em grego podem ter sido escritos naquela ocasião o grande Codex Sinaiticus e o Codex Vaticanus. Estes dois inestimáveis manuscritos contêm quase a totalidade da Bíblia em grego. Ao todo são aproximadamente 20 manuscritos do Novo Testamento escritos nos primeiros cinco séculos.

Quando Constantino proclamou e impôs o cristianismo como única religião oficial no Império Romano, no final do Século IV, surgiu uma demanda nova e mais ampla por boas cópias de livros do Novo Testamento. É possível que o grande historiador Eusébio de Cesareia (263–340) tenha conseguido demonstrar ao imperador o quanto os livros dos cristãos já estavam danificados e usados, porque o imperador encomendou 50 cópias para igrejas de Constantinopla. Provavelmente, esta tenha sido a primeira vez que o Antigo e o Novo Testamentos foram apresentados em um único volume, agora denominado Bíblia.






A PRIMEIRA TRADUÇÃO


Estima-se que a primeira tradução foi elaborada entre 200 a 300 anos antes de Cristo. Como os judeus que viviam no Egito não compreendiam a língua hebraica, o Antigo Testamento foi traduzido para o grego. Porém, não eram apenas os judeus que viviam no estrangeiro que tinham dificuldade de ler o original em hebraico: com o cativeiro da Babilônia, os judeus da Palestina também já não falavam mais o hebraico.


TRADUÇÃO DOS SETENTA


Realizada por 70 sábios, ela contém sete livros que não fazem parte da coleção hebraica, pois não estavam incluídos quando o cânon (ou lista oficial) do Antigo Testamento foi estabelecido por exegetas israelitas no final do Século I d.C. A igreja primitiva geralmente incluía tais livros em sua Bíblia. Eles são chamados apócrifos ou deuterocanônicos e encontram-se presentes nas Bíblias de algumas igrejas. Esta tradução do Antigo Testamento foi utilizada em sinagogas de todas as regiões do Mediterrâneo e representou um instrumento fundamental nos esforços empreendidos pelos primeiros discípulos de Jesus na propagação dos ensinamentos de Deus.


OUTRAS TRADUÇÕES


Outras traduções começaram a ser desenvolvidas por cristãos novos nas línguas copta (Egito), etíope (Etiópia), siríaca (norte da Palestina) e em latim – a mais importante de todas as línguas pela sua ampla utilização no Ocidente. Por haver tantas versões parciais e insatisfatórias em latim, no ano 382 d.C, o bispo de Roma nomeou o grande exegeta Jerônimo para fazer uma tradução oficial das Escrituras.

Com o objetivo de realizar uma tradução de qualidade e fiel aos originais, Jerônimo foi à Palestina, onde viveu durante 20 anos. Estudou hebraico com rabinos famosos, e examinou todos os manuscritos que conseguiu localizar. Sua tradução tornou-se conhecida como “Vulgata”, ou seja, escrita na língua de pessoas comuns (“vulgus”). Embora não tenha sido imediatamente aceita, tornou-se o texto oficial do cristianismo ocidental. Neste formato, a Bíblia difundiu-se por todas as regiões do Mediterrâneo, alcançando até o Norte da Europa.

Na Europa, os cristãos entraram em conflito com os invasores godos e hunos, que destruíram uma grande parte da civilização romana. Em mosteiros, nos quais alguns homens se refugiaram da turbulência causada por guerras constantes, o texto bíblico foi preservado por muitos séculos, especialmente, a Bíblia em latim na versão de Jerônimo.

Não se sabe quando e como a Bíblia chegou até as Ilhas Britânicas. Missionários levaram o evangelho para Irlanda, Escócia e Inglaterra, e não há dúvida de que havia cristãos nos exércitos romanos que lá estiveram no segundo e terceiro séculos. Provavelmente a tradução mais antiga na língua do povo desta região é a do Venerável Bede. Relata-se que, no momento de sua morte, em 735, ele estava ditando uma tradução do Evangelho de João. Entretanto, nenhuma de suas traduções chegou até nós. Aos poucos, as traduções de passagens e de livros inteiros foram surgindo.


PRIMEIRAS ESCRITURAS IMPRESSAS


Na Alemanha, em meados do século 15, um ourives chamado Johannes Gutenberg desenvolveu a arte de fundir tipos metálicos móveis. O primeiro livro de grande porte produzido por sua prensa foi a Bíblia em latim. Cópias impressas decoradas à mão passaram a competir com os mais belos manuscritos. Esta nova arte foi utilizada para imprimir Bíblias em seis línguas antes de 1500 – alemão, italiano, francês, tcheco, holandês e catalão. E em outras seis línguas até meados do século 16 espanhol, dinamarquês, inglês, sueco, húngaro, islandês, polonês e finlandês.

Finalmente as Escrituras realmente podiam ser lidas na língua destes povos. Mas essas traduções ainda estavam vinculadas ao texto em latim. No início do século 16, manuscritos de textos em grego e hebraico, preservados nas igrejas orientais, começaram a chegar à Europa ocidental. Havia pessoas eruditas que podiam auxiliar os sacerdotes ocidentais a ler e apreciar tais manuscritos.

Uma pessoa de grande destaque durante este novo período de estudo e aprendizado foi Erasmo de Roterdã. Ele passou alguns anos atuando como professor na Universidade de Cambridge, Inglaterra. Em 1516, sua edição do Novo Testamento em grego foi publicada com seu próprio paralelo da tradução em latim. Assim, pela primeira vez, estudiosos da Europa ocidental puderam ter acesso ao Novo Testamento na língua original, embora, infelizmente, os manuscritos fornecidos a Erasmo fossem de origem relativamente recente e, portanto, não eram completamente confiáveis.


DESCOBERTAS ARQUEOLÓGICAS


Várias foram as descobertas arqueológicas que proporcionaram o melhor entendimento das Escrituras Sagradas. Os manuscritos mais antigos que existem de trechos do Antigo Testamento datam de 850 d.C. Existem partes menores bem mais antigas como o Papiro Nash do segundo século da era cristã. Mas sem dúvida a maior descoberta ocorreu em 1947, quando um pastor beduíno, que buscava uma cabra perdida de seu rebanho, encontrou por acaso os Manuscritos do Mar Morto, na região de Jericó.

Durante nove anos, vários documentos foram encontrados nas cavernas de Qumran, no Mar Morto, constituindo-se nos mais antigos fragmentos da Bíblia hebraica que se têm notícias. Escondidos ali pela tribo judaica dos essênios no século I, nos 800 pergaminhos, escritos entre 250 a.C. a 100 d.C., aparecem comentários teológicos e descrições da vida religiosa deste povo, revelando aspectos até então considerados exclusivos do Cristianismo.

Estes documentos tiveram grande impacto na visão da Bíblia, pois fornecem espantosa confirmação da fidelidade dos textos massoréticos aos originais. O estudo da cerâmica dos jarros e a datação por carbono 14 estabelecem que os documentos foram produzidos entre 168 a.C. e 233 d.C.

Destaca-se, entre estes documentos, uma cópia quase completa do livro de Isaías, feita cerca de 100 a.C. Especialistas compararam o texto dessa cópia com o texto-padrão do Antigo Testamento hebraico (o manuscrito chamado Codex Leningradense, de 1008 d.C.) e descobriram que as diferenças entre ambos eram mínimas.

Outros manuscritos também foram encontrados neste mesmo local, como fragmentos de um texto do profeta Samuel, textos de profetas menores, parte do livro de Levítico e um targum (paráfrase) de Jó.

As descobertas arqueológicas, como a dos manuscritos do Mar Morto e outras mais recentes, continuam a fornecer novos dados aos tradutores da Bíblia. Elas têm ajudado a resolver várias questões a respeito de palavras e termos hebraicos e gregos, cujo sentido não era absolutamente claro. Antes disso, os tradutores se baseavam em manuscritos mais “novos”, ou seja, em cópias produzidas em datas mais distantes da origem dos textos bíblicos.














FONTE




20 de julho de 2019

A ILHA DOS SENTIMENTOS AUTOR REINILSON CÂMARA.






A ILHA DOS SENTIMENTOS


Era uma vez uma ilha, onde moravam todos os sentimentos: a Alegria, a Tristeza, a Sabedoria e todos os outros sentimentos. Por fim o amor. Mas, um dia, foi avisado aos moradores que aquela ilha iria afundar. Todos os sentimentos apressaram-se para sair da ilha.

Pegaram seus barcos e partiram. Mas o amor ficou, pois queria ficar mais um pouco com a ilha, antes que ela afundasse. Quando, por fim, estava quase se afogando, o Amor começou a pedir ajuda. Nesse momento estava passando a Riqueza, em um lindo barco. O Amor disse:

- Riqueza, leve-me com você.
- Não posso. Há muito ouro e prata no meu barco. Não há lugar para você.





Ele pediu ajuda a Vaidade, que também vinha passando.

- Vaidade, por favor, me ajude.
- Não posso te ajudar, Amor, você esta todo molhado e poderia estragar meu barco novo.

Então, o amor pediu ajuda a Tristeza.

- Tristeza, leve-me com você.
- Ah! Amor, eu estou tão triste, que prefiro ir sozinha.

Também passou a Alegria, mas ela estava tão alegre que nem ouviu o amor chamá-la.
Já desesperado, o Amor começou a chorar. Foi quando ouviu uma voz chamar:






- VEM AMOR, EU LEVO VOCÊ!

Era um velhinho. O Amor ficou tão feliz que se esqueceu de perguntar o nome do velhinho. Chegando do outro lado da praia, ele perguntou a Sabedoria.

- Sabedoria, quem era aquele velhinho que me trouxe aqui?

A Sabedoria respondeu:

- Era o TEMPO.
- O Tempo? Mas porque só o Tempo me trouxe?
- Porque só o Tempo é capaz de entender o "AMOR".










Autor: Reinilson Câmara
Postado por Alberto Araújo






13 de julho de 2019

EM 14 DE JULHO CELEBRAMOS SÃO CAMILO DE LÉLIS FUNDADOR DA CONGREGAÇÃO DOS CAMILIANOS. O PADROEIRO DOS ENFERMEIROS.


EM 14 DE JULHO CELEBRAMOS SÃO CAMILO DE LÉLIS FUNDADOR DA CONGREGAÇÃO DOS CAMILIANOS. O PADROEIRO DOS ENFERMEIROS, DOS DOENTES E DOS HOSPITAIS PROTETOR CONTRA O VÍCIO DO JOGO. ALGUMAS IMAGENS DA MISSA DO DIA 13 DE JULHO EM INTENTO À ALMA BONDOSA DO SANTO CATÓLICO CELEBRADA NA PARÓQUIA SÃO JUDAS TADEU DE ICARAÍ PELO PÁROCO PADRE CARMINE PASCALE.





Padre Carmine Pascale.





Imagem de São Camilo de Lélis exposta no altar.

Coral da Paróquia São Judas Tadeu
executas lindos hinos católicos.

Souvenir recebido pelas paroquianas.



"Os enfermos são as pupilas do Coração de Jesus, e o que fizermos por eles faremos ao próprio Jesus. São Camilo de Léllis"



CAMILO DE LÉLLIS nasceu em 25 de maio de 1550, no vilarejo de Bucchianico, região de Chieti, ao sul da Itália. Sua mãe, Camila Compelli, com efeito, tinha quase sessenta anos. Seu pai, João de Lellis, era militar e passava pouco tempo em casa. O parto foi difícil, mas Camilo nasceu saudável e foi a grande alegria de seus pais.

A mãe foi quem educou Camilo na infância e adolescência. Educou-o na religião, na moral e nos bons costumes. Porém, quando Camilo tinha apenas treze anos, ela faleceu. O baque foi grande. Camilo tornou-se rebelde e passou a detestar os estudos. Então, foi viver com o pai. Foi uma experiência difícil, pois o pai era viciado em jogo. Por isso, não tinha estabilidade. Vivia mudando de quartel por ganhar e perder tudo que tinha nos jogos de azar.

Apesar dessa fraqueza, que hoje sabemos ser uma doença (a dependência do jogo) o pai amava Camilo e queria ajuda-lo. Por isso, quando Camilo fez quatorze anos, colocou-o para trabalhar no exército como soldado. A essa altura, Camilo mal sabia ler, mas tinha um corpo atlético. Por isso, sobravam para ele os serviços braçais. Por falta de escolaridade, nunca saiu do posto de soldado.

Quando Camilo tinha dezenove anos, seu pai faleceu. Como herança, Camilo recebeu apenas a espada e o punhal do pai. Nessa época, Camilo já era famoso por ser um jovem forte, violento, brigador e fanático pelo jogo. A morte do pai acentuou esses desvios de caráter de tal forma que os outros tinham medo dele. Como o pai, ele passou a ganhar e a perder tudo que tinha no jogo.

No ano 1570 um frade franciscano não teve medo de Camilo e conversou longamente com ele. Os dois se tornaram amigos. Camilo sentiu que, apesar da violência que ele cultivou alguém conseguiu enxergar sofrimento e bondade em seu coração. Isso surpreendente foi bom que ele quis entrar para a Ordem dos Franciscanos. Ao chegar ao convento, porém, seu ingresso foi barrado por causa de uma enorme ferida no pé.


Os franciscanos enviaram Camilo para receber tratamento no hospital de São Tiago, na cidade de Roma. Lá, ele teve um diagnóstico triste: seu tumor era incurável. Como não tinha dinheiro para fazer o tratamento, ofereceu-se para trabalhar como servente e conseguiu trocar sua força de trabalho pelos cuidados médicos. Porém, além da ferida no pé, ele tinha outra doença na alma: o vício no jogo. Por afundar-se no jogo, nas dívidas e em confusões, ele foi demitido.


Na rua, sem trabalho, sem dinheiro, com um tumor incurável, ficou sabendo que os frades capuchinhos estavam construindo um mosteiro. Lá, ele conseguiu o emprego de servente de pedreiro. O contato diário com os franciscanos foi mudando seu coração. Certo dia, quando ia para o trabalho, teve uma visão que mudou sua vida definitivamente. Essa visão nunca foi revelada a ninguém. Porém, depois dela, ele nunca mais voltou a jogar e se converteu profundamente. Ele tinha, então, vinte e cinco anos.

Transformado, Camilo pediu para ingressar novamente na Ordem Franciscana. Porém, por causa de sua ferida, não conseguiu. Os franciscanos, porém, conseguiram que ele fosse internado de novo no hospital de São Tiago. Lá, sua segunda estadia foi bem diferente da primeira. Ele tratava de sua ferida, sim, mas passou a cuidar dos outros doentes fazendo um trabalho de voluntário. Assistia sempre àqueles que eram mais repugnantes, os quais eram simplesmente abandonados pelos funcionários bem remunerados do hospital.

São Camilo de Léllis passou a enxergar nos doentes terminais, rejeitados e repugnantes, o próprio Cristo. Amava-os de todo o coração e passou a viver por eles. Os enfermos que tinham condições de se manifestar agradeciam emocionados pela atenção e carinho que recebiam daquele jovem forte e cheio de amor cristão. Muitos se converteram ao serem cuidados por São Camilo. Outros tantos faleceram na graça de Deus, pois Camilo os levou ao arrependimento e à confissão.

O testemunho de São Camilo de Lélis começou a atrair jovens que se dispunham a segui-lo no cuidado amoroso e gratuito aos doentes. Nesse tempo, uma santa amizade nasceu com um padre, e futuro santo, que foi decisivo em sua vida: São Filipe Neri. Este percebeu a grande graça que Deus derramara na vida de Camilo. Os dois fundaram, então, a Congregação dos Ministros Camilianos. A princípio, era apenas uma irmandade composta de voluntários dispostos a cuidar dos enfermos pobres, miseráveis, terminais, rejeitados por todos.

São Filipe Néri incentivou e ajudou São Camilo de Léllis a estudar e a vestir o hábito da própria congregação. Em 1591, aprovada pelo Vaticano, a Congregação se tornou uma Ordem Religiosa. São Camilo foi ordenado sacerdote e eleito o superior da Ordem dos Camilianos, conhecida também como a “Ordem dos Padres Enfermeiros”. São Camilo dirigiu a Ordem com firmeza por vinte anos.

Após esses vinte anos, São Camilo de Lélis dedicou os sete restantes de sua vida a ensinar como cuidar e conviver com os doentes. Suportando horríveis dores nos pés, São Camilo ia visitar os doentes nas casas. Quando era preciso, ele mesmo levava-os nas costas para o hospital dando graças a Deus pelo porte físico que tinha. São Camilo teve também o dom da cura pela oração. Por isso, passou a ser procurado por gente de todos os lugares. Tornou-se famoso e amado por toda a Itália. Tido como santo em vida por todos. São Camilo de Léllis faleceu em no dia 14 de julho de 1614, com fama de santidade. Sua canonização foi celebrada em 1746. Ele foi declarado Padroeiro dos Enfermeiros, dos hospitais e dos doentes em 1886.






ORAÇÃO A SÃO CAMILO DE LÉLLIS

“Senhor, Deus de toda a consolação, Pai rico em misericórdia, vós sois amor. Conheceis nossas necessidades e estais presente em nossos sofrimentos. Escolhestes São Camilo para cuidar dos doentes e ensinar como servi-los. Pedimos, por vossa intercessão, o dom da caridade que ilumina, fortalece e leva à plenitude a nossa vida para amar-vos também em ossos sofrimentos e servir-vos com amor em nossos irmãos e irmãs doentes. Amém. São Camilo de Léllis rogai por nós.”


24 de junho de 2019

SÃO JOÃO BATISTA, O SANTO DE TODOS OS SANTOS NA CELEBRAÇÃO PELO MUNDO CRISTÃO. EM 24 DE JUNHO.





EM 24 DE JUNHO, FESTEJAMOS A NATIVIDADE DE SÃO JOÃO BATISTA, O SANTO DE TODOS OS SANTOS NA CELEBRAÇÃO DO MUNDO CRISTÃO. SÃO JOÃO BATISTA, O PRECURSOR DE JESUS CRISTO.






Hoje, 24 de junho: dia de São João Batista, o precursor de Jesus Cristo. a Igreja celebra a festa da natividade de João, o batista. De todos os santos, João é o único do qual celebramos o nascimento. Todos os outros têm a festa celebrada no dia da morte. Conta a tradição que quando João nasceu sua mãe teria acendido uma grande fogueira para anunciar o nascimento do bebê. Assim, sua prima Maria poderia saber do acontecido mesmo de longe, ao ver o sinal de fumaça no céu.

João nasceu de Isabel, que era prima de Maria, mãe de Jesus. De acordo com os evangelhos, João foi o precursor do ministério de Jesus. Ainda no ventre da mãe, João alegrou-se com a chegada de Maria. Foi ele quem batizou Jesus nas águas do rio Jordão e apontou para seus discípulos o “Cordeiro de Deus”.
Os evangelistas apresentam João como precursor do Messias. O dia de seu nascimento é chamado de "Aurora da Salvação". João inicia sua missão alguns anos antes de Jesus iniciar a sua própria missão.

Ele era um filho muito desejado por seus pais, Isabel e Zacarias, ela estéril e ele de origem sacerdotal e já com idade bem avançada. Conforme a indicação de Lucas, Zacarias recebeu o anúncio do anjo de que seria pai. Duvidou e ficou mudo. Isabel, confiante, gerou João, o último profeta. O menino foi crescendo e fortificando-se em espírito e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel.

Com palavras firmes, pregava a conversão e a necessidade do batismo de penitência. Anunciava a vinda do Messias prometido e esperado. Sua originalidade era o convite a receber a purificação com água no rio Jordão, prática chamada batismo. Daí o seu apelido de Batista.

Ele morre degolado sob o governo do rei Herodes Antipas, por defender a moralidade e os bons costumes. O seu martírio é também celebrado na liturgia da igreja.
Colaboração: Padre Evaldo César de Souza, CSsR






REFLEXÃO São João Batista é um dos santos mais populares em todo o mundo cristão. A sua festa é muito alegre e até folclórica. Com muita música e danças, o ponto central é a fogueira, lembrando aquela primeira feita por seus pais para comunicar o seu nascimento. João é elo entre a Antiga e a Nova Aliança. É também lembrado como um grande profeta.

ORAÇÃO São João Batista ajudai-me a fazer penitência das minhas faltas para que eu me torne digno do perdão daquele que vós anunciastes com estas palavras: "Eis o Cordeiro de Deus, eis aquele que tira os pecados do mundo". 
Amém!





SERMÃO DE SÃO JOÃO BATISTA - DO PADRE ANTÔNIO VIEIRA





Na profissão da Senhora Madre Soror Maria da Cruz, filha do Excelentíssimo Duque de Medina Sidônia, Religiosa de S. Francisco, no mosteiro de Nossa Senhora da Quietação, das Flamengas, em Alcântara.

Esteve o Santíssimo Sacramento exposto. Ano 1


Elisabeth impletum est tempus pariendi, et peperit filium. Et audierunt vici¬ni et cognati ejus quia magnificavit Dominus misericordiam suam cum illa, et congratulabantur ei. Et venerunt circumcidere puerum, et vocabant eum nomine patris suis Zachariam. Et respondens mater ejus, dixit: Nequaquam, sed vocabitur Joannes [1].



§I


Dia de falarem os corações e de calarem as línguas. O desposório de Deus no deserto e o desposório de Deus no paço. Qual é a razão por que Deus se desposa os desertos sempre? Por que não busca esposa com menos desigualdade nas cortes e nos paços dos reis? O panegírico de Cristo ao Batista. Qual a razão por que Deus, que só se desposava nos desertos, hoje se desposa no paço? Jó, e os reis e príncipes que edificam desertos. Edificar por edifícios e edificar por edificação.

Senhor. No dia em que, nasce a voz de Deus, justamente emudecem as vozes dos homens. Admirações emudecidas são a retórica deste dia: Mirat sunt unirversi [2]  — pasmos e assombros são as eloqüências desta ação: Factus est temor super omnes vicinos eorum [3]. — É dia hoje de falarem os corações e de calarem as línguas: por isso a língua de Zacarias emudeceu, por isso os corações dos montanheses falavam: Posuerunt in corde suo, dicentes [4] . — E se em qualquer dia do grande Batista é perigoso o falar, e os discursos mais discretos são os que se remetem ao silêncio, que será hoje no concurso de tantas obrigações, em que as causas do temor e os motivos da admiração se vêm tão crescidos? Se toda a razão dos assombros no nascimento do Batista era verem que dava Deus a uma alma a mão de amigo: Etenim manus Domini erat cum illo [5]. — quanto mais deve assombrar hoje nossa admiração ver que dá Deus a outra alma a mão de esposo: Etenim manus Domini erat cum illa? Bem sei que disse Orígenes que dar Deus a mão ao Batista foi desposar-se com sua alma: mas muito vai de desposório a desposório porque vai muito de lugar a lugar. Desposar-se Deus nos desertos é coisa ordinária; mas desposar-se Deus nos palácios: Deus desposado no paço! Maravilha grande. É caso este em que acho contra mim todas as Escrituras.


Se lermos o profeta Oséias acharemos que, querendo Deus desposarse com uma alma, disse que a levaria primeiro a um deserto: Ducam eam in solitudinem, et loquar ad cor ejus [6] : Se lermos o profeta Jeremias, acharemos que, lembrando Deus a Jerusalém o tempo que com ela se desposara, advertiu que fora neutro deserto: Charitatem desponsationis tuae, quando secuta es me in deserto [7]. — Se lermos os Cantares de Salomão, acharemos que os desposórios daquela alma, sobre todas querida de Deus, num deserto se trataram, noutro deserto se conseguiram: Quae est ista quae ascendit per desertum [8]  — diz no capítulo III. Quae est ista quae ascendit de deserto, innixa super dilectum suum [9]  — diz no capítulo VIII. — Mas para que é multiplicar Escrituras, se o mesmo Esposo, que está presente, nos pode escusar a prova? O mistério em que Deus mais propriamente se desposa com as almas é o Sacramento soberano da Eucaristia, porque nele — como gravemente notou Santo Agostinho — por meio da união do corpo de Cristo se verifica entre Deus e o homem: Erunt duo in carne una [10] . — E se buscarmos os lugares em que Deus figurativamente celebrou estes desposórios, acharemos que os principais, assim no Velho como no Novo Testamento, foram desertos. A principal figura do Sacramento no Testamento Velho foi o maná: durou quarenta anos, e todos foram de deserto: Patres nostri manducaverunt manna in deserto [11]— A principal figura do acramento no Testamento Novo foi o milagre dos cinco pães e o milagre dos sete, e ambos sucederam no deserto: Desertus locus est, et non habent quod manducent. Unde eos quis potest hic saturare panibus in solitudine [12]? Pois, qual é a razão — para que mais fundamente nos admiremos — qual é a razão por que se desposa Deus nos desertos sempre? Não é o Monarca universal do mundo, não é o Príncipe eterno da glória? Pois, já que há de desposar-se desigualmente na terra, por que não busca esposa com menos desigualdade nas cortes e nos paços dos reis, senão nos desertos e nas soledades?


A razão é porque esposa, com as qualidades de que Deus se agrada, não se acha nos palácios, acha-se nos desertos. O Sacramento nos fundou a dúvida, S. João nos fundará a resposta. Fez Cristo um panegírico do Batista — que de tão grande sujeito só Deus pode ser bastante orador — as palavras foram poucas, substância muita, e começou o Senhor assim: Quid existis in desertum videre?Hominem mollibus vestitum? Ecce qui mollibus vestiuntur, in domibus regum sunt [13] : Sabeis quem é João, esse a quem todos saís a ver? — diz Cristo. — É um homem que vive no deserto: não é dos homens que vivem no paço. — Notável dizer! — Pois, Senhor, este é o tema que vós tomais para pregar do Batista? Quando quereis concluir que é o maior dos nascidos, fundais o sermão em que vive no deserto, e não vive no paço? Sim. Toda a perfeição resumida consiste, como dizem os teólogos, in prosecutione et fuga: em seguir e em fugir — em seguir a virtude e em fugir ao vício. Por isso os preceitos eclesiásticos e divinos, uns são positivos, outros negativos: os positivos, que nos mandam seguir o bem, és negativos, que nos mandam fugir ao mal. Pois, para Cristo resumir a poucos fundamentos toda a perfeição do Batista, que fez? Disse que era um homem que seguia todo o bem, e que fugia de todo o mal. E para dizer que seguia todo o bem, disse que vivia no deserto para dizer que fugia de todo o mal, disse que não vivia no paço. Explicou-lhe Cristo a vida pelo lugar, e, para dizer quem era, disse onde morava. Ainda não digo bem. Para dizer quem era disse onde morava e onde não morava. Para dizer que era homem do céu disse que morava no deserto; para dizer que não era homem da terra, disse que não morava no paço. E que, estando os paços dos reis da terra tão mal reputado com Deus, que aquele Senhor, que só se desposava nos desertos, hoje o vejamos desposado em palácio! Maravilha grande!


Mas qual será a razão desta maravilha? Qual será a razão por que Deus, que só se desposava nos desertos, hoje se desposa no paço? A razão é porque o paço das rainhas de Portugal é paço com propriedades de deserto. Deus comumente desposas-se no deserto, porque não acha no deserto as condições do paço: hoje desposa-se no paço, porque achou no paço as condições do deserto. Quando a Jó, no meio de seus trabalhos, lhe parecia melhor a morte que a vida, entre às queixas que fazia dela, disse desta maneira: Et nunc requiescerem cum regibus et consulibus, qui aedificant sibi solitudines (Jó 3, 13 s): Se eu fora morto, estivera agora descansado entre os outros reis e príncipes que edificam desertos. — Notável modo de falar! Cum regibus qui aedificant solitudines: reis que edificam desertos! Se dissera reis que edificam palácios, bem estava; mas reis que edificam desertos! Os desertos edificam-se? Antes, desfazendo edifícios é que se fazem desertos. Pois, que reis são estes que trocam os termos à arquitetura? Que reis são estes que edificam desertos? — São aqueles reis — diz S. Gregário Papa — em cujos paços reais de tal maneira se contemporizam com a vaidade da terra, que se trata principalmente da verdade do céu; e paços onde se serve a Deus como nos ermos não são paços, são desertos: Qui aedificant sibi solitudines. — Bem dito, que edificam, porque há duas maneiras de edificar, edificar por edifício e edificar por edificação. O edifício faz dos desertos palácios, a edificação faz dos palácios desertos. Um paço onde se serve a Deus é um deserto edificado. Paço onde só Deus se serve, e o mundo só se contemporiza, onde a clausura compete com a das religiões, onde as galas são dissimulação do cilício, onde a licença do galanteio, a liberdade dos saraus, e outras mal entendidas grandezas, são exercícios de espírito, onde sair do paço para o noviciado, mais é mudar de casa que de vida, este ermo cortesão não lhe chamem paço, chamem-lhe deserto: Qui aedificant sibi solitudines. — Lá disse Sócrates do imperador Teodósio II, que fora tão religioso príncipe e tão reformador da casa real, que convertera o paço em mosteiro: Palatium sic disposuit ut haud alienum esset a monasterio. — Esta conto eu entre as grandes felicidades do nosso príncipe, que Deus guarde, e a tenho ainda por maior que a do outro Teodósio. O outro Teodósio fê-la, o nosso achou-a: o outro criou esta reformação, o nosso cria-se nela. Oh! que grandes fundamentos para tão grandes esperanças! E como no paço de Portugal tem o céu tantas prerrogativas de deserto, que muito que Deus, costumado a se desposar nos desertos, o vejamos hoje desposado no paço! Cessem pois as admirações com as dos montanheses, rompa-se o silêncio com o de Zacarias, e comecemos a falar nesta ação, pois nos dá licença o pasmo: Et apertum est illico os jus [14].



§ II


O pregador e as obrigações do dia. Por que diz o evangelista que S. João havia de nascer depois de passado o tempo que a natureza limitou para o nascimento. A razão e a natureza. Razões por que Cristo amaldiçoou a figueira. As batalhas da razão com o tempo nos exemplos das Escrituras. Resposta de Barcelai a Davi. S. Paulo e a resolução de Moisés ao deixar o paço de el-rei Faraó.


Verdadeiramente que me vi embaraçado no concurso das obrigações de hoje, porque são todas tão grandes que cada uma pedia o sermão todo. Para não errar, aconselhei-me com o mesmo S. João Batista, e seguirei sua doutrina: Qui habet sponsam, sponsus est:: amicus autem sponsi gaudio gaudet [15]. — Eu sou amigo de Cristo — diz S. João — a esposa é do esposo, a festa é do amigo. — Assim seja. A festa será de S. João, o dia será da esposa, e o Evangelho se acomodará tanto a um e a outro, que pareça que é de ambos. Vamos com ele, sem nos apartar um ponto.


Elisabeth impletum est tempus pariendi, et peperit filium: Isabel, depois de cumprido o tempo dos nove meses, foi mãe de um filho. — Aquela palavra impletum est tempus: depois de cumprido o tempo — pareceu supérflua a alguns doutores antigos. Não estava claro que S. João havia de nascer como os outros homens, passado o tempo que a natureza limitou para o nascimento? Pois, por que diz uma coisa supérflua o evangelista, que nasceu S. João depois de cumprido o tempo: Elisabeth impletum est tempus? O Cardeal Toledo, e todos os literais, dizem que não foi supérflua esta advertência, senão mui necessária, suposta que em S. João se anteciparam tanto as leis da natureza que aos seis meses de concebido já tinha uso da razão. E quem antecipou o uso da razão tantos anos, podia-se cuidar que também anteciparia o nascimento alguns meses. Pois, para que se soubesse, que não foi assim, diga o evangelista que nasceu S. João depois de cheio e cumprido o tempo. Elisabeth impletum est tempus. — Esta é a verdadeira inteligência deste texto; mas quanto mais verdadeira, tanto mais funda a minha dúvida. Que se diga que S. João nasceu cumprido o tempo, porque não antecipou o nascimento, bem dito está: mas por que o não antecipou? Por que não antecipou o tempo do nascimento, assim como antecipou o tempo do uso da razão? O uso da razão, segundo as leis da natureza, havia de ser aos sete anos do nascimento, o nascimento aos nove meses da conceição. Pois, se antecipou o uso da razão tantos anos, por que não antecipou o nascimento alguns meses? Por que o nascimento pertence à vida da natureza, o uso da razão pertence à vida da graça; e nas matérias temporais, o que costuma fazer o tempo bem é que o faça o tempo: nas matérias espirituais, o que costuma fazer o tempo, melhor é que o faça a razão. Para nascer ao mundo, faça o tempo o que há de fazer o tempo; para nascer a Deus, o que há de fazer o tempo faça-o a razão. Caminhava Cristo de Betânia para Jerusalém, viu no campo uma figueira muito copada, chegou, e como não achasse mais que folhas, amaldiçoou-a. E nota o evangelista S. Marcos — coisa muito digna de se notar — que não era tempo daquela árvore ter fruto: Non erat tempus ficorum (Mc. 11, 13). — Pois, valha-me Deus — pasmam aqui todos os doutores se não era tempo de fruto, para que o foi Cristo buscar? E se o não achou quando o não havia, por que castigou Cristo a árvore? Se a castigou, tinha ela obrigação de ter frutos; e se não era tempo, como tinha esta obrigação? Tinha esta obrigação — diz S. Crisóstomo — porque, ainda que por ser primavera não devia frutos ao tempo, por Deus se querer servir dela devia-os à razão. E as dívidas da razão não hão de esperar pelos vagares de tempo. Para dar frutos ao mundo faça o tempo o que há de fazer o tempo: Elisabeth impletum est tempus — mas para dar frutos a Deus, o que há de fazer o tempo faça-o a razão: Exultavit infans in utero [16] . — Esta é uma das excelências que eu venero muito entre as grandes do Batista: ser um homem em quem fez a razão o que faz nos outros o tempo. Esperarem os anos pela razão, isso acontece a todos, mas adiantar-se a razão aos anos, fazer a razão o, que havia de fazer o tempo, isso só se acha no Batista, se bem gloriosamente imitado hoje.


Oh! que gloriosamente equivocado temos hoje o ano: o abril mudado em setembro, e os frutos que havia de amadurecer o tempo, sazonados na razão! Quem podia fazer outono dos frutos a primavera das flores, senão a esposa querida de Cristo: Flores apparuerunt in terra nostra, tempus putationis advenit [17]? — Assim obedecem os tempos, onde assim domina a razão. Que já o mundo e a vida não saibam enganar! Que vejamos tantos desenganos da vida em tão poucos anos de vida! Que é isto? É que fez a razão o que havia de fazer o tempo. Seguirem-se aos anos os desenganos, é fazer o tempo o que faz o tempo; mas anteciparem-se os desenganos aos anos, é fazer a razão o que o tempo havia de fazer. Queixava-se Marco Túlio que, sendo os homens racionais, pudesse mais com eles o discurso do tempo que o discurso da razão. Mas hoje vemos o discurso da razão mais poderoso que o discurso do tempo. Que não bastassem noventa anos para dar siso a Heli, e que bastem dezoito anos para fazer sisudo a Samuel (1 Rs. 3)? Ó que grande vitória da razão contra a sem-razão do tempo! Uma velhice enganada é a maior sem-razão do tempo; uma mocidade desenganada é a maior vitória da razão. Que não corte os cabelos Sara, depois de pentear desenganos, e que os cabelos de Absalão, na idade de ouro, sintam os rigores do fogo (2 Rs. 14)! Que enxugue a Madalena as lágrimas dos pés de Cristo com os cabelos, mas que os não corte, e que haja outra Maria que ponha aos pés de Cristo os cabelos cortados com os olhos enxutos (Lc. 7)! Que Jacó, na primavera dos anos, enterre a sua Raquel, é inconstância da vida (Gên. 35); mas que Raquel, na primavera da vida, se sepulte a si mesma! Grande valor da razão. Dar a vida a Deus quando ele a tira é dissimular a violência: entregar-lha quando ele a dá é sacrificar a vontade. Quem  dedica a Deus os últimos anos faz cristão o temer da morte: quem lhe consagra os primeiros faz religioso o amor da vida.





                                                                       
As batalhas da razão com os anos é uma guerra em que resistem mais os poucos que os muitos. Deixarem-se vencer da razão os muitos anos, não é muito; mas deixarem-se vencer e convencer os poucos, grande poder da razão! E mais, se considerarmos a resistência favorecida do sítio. Poucos anos, e nas montanhas — como eram os do Batista — não é tanto que se não defendam à força da  razão; mas poucos anos, e em palácio, convencidos e desenganados! Grão vitória! Ofereceu el-rei Davi a Bercelai um grande lugar no paço, e ele, que era já de oitenta anos, que responderia? Octogenarius sum hodie: non indigeo hac vicissitudine [18]: Respondeu que assaz tinha aprendido em tantos anos a desenganar-se das cortes: que o deixasse o rei viver retirado consigo, e tratar da sepultura; porém, que aceitava o lugar para um seu filho que tinha, de pouca idade. Est.servosç tuus Chamaam, ipse vadat tecum [19]. –Parece que se implica nesta ação o amor de pai, mas explica-se bem o engano do mundo. Desenganaram a Bercelai os muitos anos próprios, para não querer o paço para si, e enganaram-no os poucos anos alheios, para querer o paço para o filho. Não sei que tem o paço e os poucos anos que, ainda quando o conhecem os muitos, não se atrevem a o deixar os poucos.Teve conhecimento para o deixar um velho: não teve ânimo para o aconselhar a um moço. Sendo mais fácil de dar o conselho que o exemplo, deu o exemplo ¬Bercelai, mas não se atreveu a dar o conselho. Antes, parece que se substituiu o pai nos anos do filho, para lograr na mocidade alheia o que na própria velhice não       podia. E que não havendo valor na velhice, para deixarem totalmente o mundo ainda aqueles a quem o mundo deixa, que haja resolução na mocidade para meter o mundo debaixo dos pés quem o mundo trazia na cabeça! Ó que bem se desafronta hoje a natureza humana! Lá dizia S. Paulo: Mihi mundos crucifixos est,et ego mundo [20] : O mundo está crucificado em mim, e eu estou crucificado no mundo. — Se o mundo estava crucificado em Paulo, tinha o mundo viradas as costas para Paulo; se Paulo estava crucificado no mundo, tinha Paulo viradas as costas para o mundo. E que dê eu as costas ao mundo quando o mundo me vira as costas, não é muito; mas que, quando o mundo me mostra bom rosto dê eu de rosto ao mundo, esta é a valentia maior. Que quando o mundo se ri de vós, vós choreis por ele, ó fraqueza! Mas que quando o mundo se ri para vós, vós vos riais dele, ó valentia!


É tão grande valentia esta que, sendo própria das forças da razão, não fiou S. Paulo crédito dela, senão dos poderes do tempo. Fala S. Paulo de Moisés, e diz assim: Moyses grandis factos negavit se esse filium filiae Pharaonis, coagis eligens affligi cum populo Dei, etc.[21] : Moisés, depois que foi de maior idade, deixou o paço de el-rei Faraó, deixou a princesa, deixou quanto ali possuía e esperava, escolhendo o viver pobre e sem liberdade com o povo de Deus no cativeiro do Egito. O em que reparo aqui é no grandis factos: que fez isto Moisés depois de ser de maior idade. E a que vem agora aqui a idade? S. Paulo tratava da resolução, e não dos anos de Moisés. Pois, se a resolução estava no ânimo, e não nos anos por que diz que era de maior idade Moisés quando deixou o paço, e se cativou por Deus? Direi: Moisés criara-se no paço de el-rei Faraó desde menino;  era todo o mimo e favor da princesa do Egito, que o adotara por filho, e como tal era servido, e venerado com autoridade e magnificência real. E deixar Moisés a grandeza e regalo do paço, deixar o amor de uma princesa, deixar a cercania de uma coroa, pareceu-lhe a S. Paulo, que não era façanha crível em poucos anos: por isso ajuntou a resolução com a idade, para que a idade desse crédito à resolução: Moyses grandis factus. Como se dissera: Ninguém duvide esta galharda ação de Moisés, porque, quando a fez, era já de maior idade, bem cabia nos seus anos. — Ora seja embora a resolução de Moisés vitória do tempo, que a grande ação que nós celebramos hoje, com ser tão parecida em tudo o mais, não se pode gloriar dela o tempo, senão a razão. Obrou aqui a força da razão o que lá fez o poder do tempo: Elisabeth impletum est tempus.


§  III


Se o que sucedeu foi nascer o Batista, como diz o evangelista que o que soou foi que engrandecera Deus na misericórdia? Que dependência tinham os crescimentos de Deus das diminuições do Batista? Deus e o mundo nos sonhos de Nabucodonosor. A estátua de Nabuco e gigante Golfas. Por que Cristo chamou os apóstolos quando lançaram as redes, e não quando as recolhiam? Grandezas e pouquidades das coisas do mundo. Os vinte e quatro anciãos do Apocalipse e a grandeza de Deus. A circuncisão do Batista e o sacrifício da cruz. A penitência dos inocentes e os sinais do dia do Juízo. As peles de que Deus vestiu a Adão e as peles de que vestiu a Abel. A inocência do justo, a penitência do pecador e a penitência do inocente.


Et audierunt vicini et cognati ejus guia magnificavit Deus misericordiam suam cum illa [22] . — Tanto que nasceu S. João — diz o evangelista — soou logo pelo lugar, que engrandecera Deus sua misericórdia com Santa Isabel: Quia magnificavit Deus misericordiam suam. — Notável dizer! Parece ¬que não está boa a conseqüência do texto. O que soou pelo lugar havia de ser o que sucedeu em casa de Zacarias. Suceder uma coisa e soar outra, isso acontece nas cortes lisonjeiras e maliciosas, e não nas montanhas simples. O nosso Evangelho o diz: Divulgabantur omnia verba haec: que o que se divulgava era o mesmo que sucedia. — Pois, se o que sucedeu foi nascer o Batista: Elisabeth peperit filium — como diz o evangelista que o que soou foi que engrandecera Deus sua misericórdia: Et audierunt guia magnificavit Deus misericordiam suam? — Grande louvor do Batista! Quando as vozes diziam, em casa de Zacarias, que nascera João, repetiam os ecos nas montanhas que Deus engrandecera sua misericórdia, porque quando João sai ao mundo, aumentam-se os atributos a Deus; quando João nasce, Deus cresce. Não é arrojamento, senão verdade muito chá. Disse-o o mesmo S. João, e mais falava em seus louvores com grande modéstia: Illum oportet crescere, me autem minui (Jo. 3): Importa que ele cresça e que eu diminua. — Aquele ele não se refere menos que ao Verbo humanado. Pois, como assim? Deus, ainda enquanto humano, não pode crescer; como logo diz S. João: Illum oportet crescere: Importa que ele cresça? — E, dado que pudesse crescer, que dependência tinham os crescimentos de Deus das diminuições do Batista? Deus é grande,  sem depender de ninguém. Como diz logo: Illum oportet crescere, me autem minui: Importa crescer ele, e diminuir eu? É possível crescer Deus? E é possível que o seu crescer dependa do Batista? Sim, porque ainda que Deus, por ser infinito, não pode crescer em si mesmo, por ser limitado o conhecimento humano pode crescer na nossa estimação. E na estimação dos  homens, nem Deus podia crescer sem diminuir o Batista, nem o Batista podia diminuir sem Deus crescer. Ora, vede como. O conceito que os homens faziam de Deus antigamente era tal que quando o Batista apareceu no mundo assentaram que ele era Deus. Conforme esta resolução, lhe foram oferecer adorações ao deserto, onde o mesmo S. João os desenganou (Mt. 11). E como o Batista e Deus, na opinião dos homens, eram iguais, tanto que por seu testemunho se desfez esta opinião, necessariamente cresceu Deus, e o Batista diminuiu. Di-minuiu o Batista, porque ficou menor que Deus; cresceu Deus, porque ficou maior que o Batista. De sorte que, depois que o Batista veio ao mundo, ficou Deus para com os homens maior do que dantes era: porque dantes era como o Batista, depois começou a ser maior que ele. Donde se infere, em grande louvor deste grande santo, que a medida do Batista é ser menor que Deus, e a medida de Deus é ser maior que o Batista. Não tenho menos abonado fiador que Santo Agostinho: Quisquis Joanne plus est, non tantum homo, sed Deus est: Sabeis quem é João? É menor que Deus. Sabeis quem é Deus? É maior que João. Com esta diferença, porém, que enquanto S. João o não disse, eram iguais; depois que o testemunhou, começou Deus a ser maior. — Que muito, logo, que cresça Deus nos seus atributos, quando S. João nasce no mundo! Et audierunt guia magnificavit Deus misericordiam suam.   

                                                           

Desta maneira cresceu Deus naquele tempo, e também eu hoje, se a consideração me não engana, o vejo muito crescido. Então cresceu nas minguantes de João, hoje cresce nas minguantes do mundo. Apareceu-lhe a Nabucodonosor aquela tão repetida e tão prodigiosa estátua, e viu o rei que, tocando-lhe uma pedra nos pés de barro, a estátua se diminuiu a poucas cinzas, e a pedra cresceu a grandeza de uni monte: Factus est mons magnus, et replevit torram [23]  — Para entender esta figura, que é enigmática, saibamos quem era a pedra, e quem a estátua. Em sentido de Santo Ambrósio e Santo Agostinho, a estátua era o mundo, a pedra era Deus. Pois, se a pedra é Deus, como cresce a pedra? Deus pode crescer? E se a estátua é o mundo, como diminui a estátua? O mundo diminui-se? Tudo são efeitos da estimação dos homens. Segundo a estimação que fazemos de Deus e do mundo, ou cresce a estátua e diminui a pedra, ou cresce a pedra e diminui a estátua. Se pomos a Deus aos pés do mundo, cresce o mundo e diminui Deus; se pomos o mundo aos pés de Deus, cresce Deus e diminui o mundo. Deixar a Deus por amor dos nadas do mundo é fazer a Deus menor que nada; mas deixar o tudo do mundo por amor de Deus é fazer a Deus maior que tudo: Accedet humo ad cor altum, et exaltabitur Deus [24] . — Bendito seja ele, que de quantas vezes vemos a Deus tão pequeno e tão apoucado nas cortes dos reis, o vemos hoje tão grande e tão crescido! Tão crescido e tão acrescentado está hoje Deus em sua grandeza, quantas são as grandezas do mundo que vemos a seus pés arrojadas. A estátua de Nabuco, na estatura representava grandezas, na matéria riquezas, na significação estados; e tudo isto, abrasado em fogo do coração, se rende hoje em cinzas aos pés de Cristo. Ninguém melhor sacrifica a Deus o mundo que quem lho oferece em estátua, porque o mundo em estátua é muito maior que em si mesmo. Para derrubar com uma pedra ao Golias bastou a funda de Davi; para derrubar com outra pedra a estátua de Nabuco, foram necessários impulsos — posto que invisíveis —  do braço de Deus. O Golias tinha de altura seis côvados, a estátua tinha sessenta, que nas grandezas mais pomposas do mundo sempre são maiores os gigantes que estátuas. Nunca as máquinas vivas igualam a medida das sonhadas. Sonha a fantasia, promete a esperança, profetiza o desejo, representa a imaginação, e ainda que a soltura destes sonhos, o cumprimento destas promessas, o prazo destas profecias, a verdade destas representações nunca chegam, mais triunfa o amor divino, quando pisa o fantástico que o verdadeiro, o esperado que o possuído. Deixar antes de possuir é usura de merecer, porque quem mais dá mais merece, e quem dá os bens na esperança, dá-os onde são maiores. A melhor parte dos bens desta vida é o esperar por eles; logo, mais faz quem se inabilita para os esperar que quem se priva de os possuir. Por isso Cristo chamou os príncipes dos apóstolos quando lançavam as redes, e não quando as recolhiam: Mittentes rete in mare [25]  — porque mais faz quem deixa as redes lançadas que quem deixa os lanços recolhidos. As redes quando se lançam levam em cada malha uma esperança; os lanços quando se recolhem trazem muita rede vazia.


Oh! quantas e quão bem fundadas as esperanças, oh! quantas e quão bem entendidas grandezas honram hoje em piedoso sacrifício os altares de Cristo! Dizia S. Paulo aos Romanos que ninguém pode dar a Deus senão o que Deus lhe der primeiro (Rom. 1). Mas eu vejo hoje um espírito tão engenhosamente liberal, que, havendo recebido de Deus tanto, ainda lhe oferece mais do que Deus lhe deu. Não há dúvida que, dos bens temporais, mais liberal é o mundo em suas promessas que Deus em suas liberalidades. Não costuma Deus dar tanto, quanto o mundo costuma prometer. Bem se segue, logo, que mais dá a Deus quem lhe dá as promessas do mundo, que quem lhe torna as dádivas suas. Se dais a Deus o que Deus vos dá, dareis muito; mas se dais a Deus o que o mundo vos promete, dais muito mais. Ó quão liberal está com Deus quem, dando-lhe as maiores grandezas, ainda busca artifícios de lhas dar acrescentadas! E que artifício pode haver para acrescentar os bens e grandezas do mundo? Eu o direi, que nos exemplos desta ação não se pode deixar de aprender muito. Os bens e grandezas do mundo falsamente se chamam bens, porque são males, e sem razão se chamam grandezas, porque são pouquidade. Pois, que remédio para fazer das pouquidades grandezas, e dos males bens? O remédio é deixá-los, e deixá-los em esperanças, porque esses que o mundo chama grandes bens só são bens quando se deixam, só são grandes quando se esperam. A esperança lhes dá a grandeza, o desprezo lhes dá a bondade desprezados são bens, esperados são grandes. E assim, mais dá quem despreza o que espera que quem dá o que possui. De umas e outras, de possuídas e de esperadas grandezas, são despojos as cinzas que hoje se rendem aos soberanos impulsos daquela pedra divina. Oh! como desaparece a estátua! Oh! como cresce o monte! De nossas diminuições aumenta Deus suas grandezas, de nossos desprezos suas majestades.


Lá viu S. João no Apocalipse aqueles vinte e quatro anciãos, que, tirando as coroas das cabeças, as lançavam aos pés do trono de Deus: Mittentes coronas suas ante thronum [26]. — Tornou a olhar o evangelista, e viu que Deus tinha muitas coroas na cabeça: Et in capite ejus diademata multa [27]. — Pois, se as coroas se lançavam aos pés de Deus, como tinha Deus as coroas sobre a cabeça? Porque tanto cresce Deus em sua grandeza quanto desprezam os homens por seu amor. As coroas na cabeça de Deus eram aumentos de sua grandeza, as coroas aos pés de Deus eram desprezos do amor dos homens; e com as mesmas coroas que arrojava o desprezo humano se autorizava a majestade divina, porque tanto cresce Deus nos aumentos de sua grandeza quantas são as grandezas que põe aos pés de Deus nosso amor. Diga-se, logo, que cresceu e se engrandeceu Deus hoje duplicadamente: uma vez medido com S. João, outra vez medido com o mundo. Ser anteposto ao mundo, e ser preferido a João, é crescer muito Deus em sua estimação e engrandecer-se muito em seus atributos: Quia magnificavit Deus misericordiam suam.


[28]  Et venerunt circumcidere puerum (Lc. 1, 59): Vieram circuncidar o menino. — Suposto que o menino era S. João, parece que o não haviam de circuncidar. A circuncisão daquele tempo era o remédio do pecado original, como hoje o batismo. Pois, se S. João estava já livre do pecado original, se estava em graça de Deus, e santificado nas entranhas de sua mãe, por que se sujeita ao rigor da circuncisão? Porque, ainda que a circuncisão não lhe tirava o pecado original, de que estava livre, acrescentava-lhe a graça da justificação, com que nascera santificado. É esta é nos servos de Deus a maior fineza da virtude: sujeitarem-se a tomar, para aumento da graça, os rigores que Deus deixou para remédio da culpa. A circuncisão nos outros homens era remédio da culpa, em S. João era só aumento da graça: e sujeitar-se S. João, para maior graça, nas isenções de inocente aos remédios de culpado: grande ação! Grande sacrifício! Fala Zacarias à letra do maior sacrifício da lei da graça, o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, e diz assim: Quod bonum ejus, et quod pulchrum ejus, nisi frumentum eloctorum, et vinum germinans virgines [29] ? Que coisa fez Deus boa, que coisa fez Deus formosa neste mundo, senão o pão dos escolhidos e o vinho dos castos? Que seja bem e boníssimo o sacrifício do corpo e sangue de Cristo sacramentado, não haverá quem o negue; mas que diga o profeta que não há outro tão bom como ele: Quod bonum ejus, et quod pulchrum ejus? — Não sei como o havemos nós de conceder. E para que não vamos mais longe, o sacrifício do corpo e sangue de Cristo na cruz não é tão bom como o sacrifício do corpo e sangue de Cristo no Sacramento? É o mesmo substancialmente. Pois, por que diz Zacarias que o sacrifício do corpo e sangue de Cristo no Sacramento é melhor que todos? A razão da vantagem eu a darei. O sacrifício do corpo e sangue de Cristo na cruz foi sacrifício para remédio de pecado; o sacrifício do corpo e sangue de Cristo no Sacramento é sacrifício para aumento da graça. Ainda que em Cristo não havia pecados próprios, nem merecia graça para si, tinha, contudo, tomado por sua conta a satisfação de nossos pecados e os meios de nossa justificação. E que sacrifique tanto Cristo na Eucaristia para aumento da graça, quanto sacrificou na cruz para remédio da culpa! Que empenhe corpo e sangue para aumentar merecimentos à inocência, como empenhou corpo e sangue para alcançar perdão ao pecado! É circunstância de sacrifício tão relevante esta, que da mesma identidade tira diferenças, e da mesma igualdade vantagens: Quod bonum ejus, et quod pulchrum ejus? –Tal foi o ato da circuncisão do Batista, comparada com a dos outros filhos de Adão. O corpo e sangue que os outros deram ao golpe da circuncisão para remédio da culpa, deu-o S. João — que a não tinha — só para aumento da graça: e que se sacrifique um inocente para crescer na graça, ao que está sujeito o pecador para remediar a culpa! Grande ação do Batista! Mas não foi sua só esta vez, nem sua somente.


 [30]  Duas inocências temos hoje sujeitas aos remédios da culpa, ambas condenadas ao rigor, ambas ao hábito da penitência, que tais injustiças como estas sabe fazer o amor divino. Condena inocências como culpas, castiga merecimentos como delitos. Que façam grande penitência os grandes pecadores, é muito justo, que a penitência é remédio do pecado. Mas que o Batista se desterre ao deserto, se condene ao cilício, se castigue com o jejum! Menino, em que pecou vossa inocência? Um corpo delicado condenado a tanta aspereza! Uma alma inocente castigada com tanto rigor! Se o Batista fora o maior pecador, que havia de fazer senão isto? Mas isto fez, porque havia de ser o maior santo. Não pode chegar a mais o mais fervoroso desejo da santidade, que sujeitar-se aos remédios do pecado quem goza os privilégios da inocência. Encarece S. Paulo o amor de Cristo para com os homens, e diz desta maneira aos coríntios: Qui peccatum non noverat, pro nobis peccatum fecit [31] . — Amou o Filho de Deus tanto aos homens que, não tendo conhecimento de pecado, se fez pecador por amor deles. — Estranha sentença! Cristo não era inocentíssimo, antes a mesma inocência? Por razão da união ao Verbo sua alma não era impecável? As mesmas palavras o dizem: Qui peccatum non noverat. — Pois, como pode caber delito na inocência? Como pode ser que o impecável se fizesse pecador: Pro nobis peccatum fecit? — Respondo. O impecável não se pode fazer pecador de culpas, mas pode-se fazer pecador de penas. Não pode cometer pecado quanto à culpa, mas pode-se sujeitar à pena do pecado, como se o cometera. Isto é o que faz Cristo por amor de nós, e isto é o que muito encarece S. Paulo em seu amor: Qui peccatum non noverat, pro nobis peccatum fecit. — Não pode o amor chegar a maior extremo, não se pode adelgaçara maior fineza, que a fazer-se pecador nas penas quem é inocente nas culpas. Que o pecador de culpas se faça pecador de penas, busca na penitência o remédio de seu pecado; mas fazer-se pecador de penas o inocente de culpas, é buscar na penitência o desafogo de seu amor. A penitência no pecador paga, no inocente obriga, naquele pelo que ofendeu, neste pelo que ama: vede quais agradarão mais a Deus, se as satisfações de ofendido, se as obrigações de amado?


Ó igualmente amado que amante Senhor! Consenti os termos da igualdade, quanto entre divino e humano se permite, pois vemos hoje as finezas de vosso amor competidas, como as dívidas de nossa obrigação desempenhadas! Uma alma inocente de culpas, mas pecadora de penas: uma inocência em hábito penitente vos oferece hoje a terra. Esposo do céu, que estas são as cores de vosso pensamento, estas as galas de vosso amor, estas as púrpuras do vosso reino. — Filiae Babylonis induuntur purpura et bysso — dizia S. Bernardo em semelhante ação à virgem Sofia — et subinde, conscientia pannosa jacet: fulgent monilibus,moribus sordent. E contra tu, foris pannosa, intus speciosa resplendes, sed divi  nis aspectibus non humanis: intus est quod delectat, quia illtus est quem delectat. – Nem a romancear me atrevo estas palavras, porque em tanta diferença de eleições, ou se há de topar com o agravo ou com a lisonja. — E contra tu — só isto quero repetir –foris pannosa, intus speciosa resplendes. — Pelo contrário vós, ó    Esposa de Cristo — diz S. Bernardo — como dentro tendes a quem quereis agradar, por dentro trazeis as galas: por fora vestida de saial, por dentro de resplendores: Foris pannosa, intus speciosa resplendes. –Verdadeiramente que, quando reparo nestas palavras, me parece que vejo já sinais do dia do Juízo. Um dos sinais do dia do Juízo será — como diz S. João no Apocalipse — vestir-se o sol de cilício: Sol factus est niger tanquam saccus cilicinus [32] . — E se já vemos vestido de cilício o sol, se mortificadas suas luzes, se penitentes seus resplendores, debaixo da aspereza de tão grosseiros eclipses, que havemos de dizer? Que se acaba o mundo? Que é chegado o dia do Juízo? Com muita propriedade se pode dizer assim, porque melhor merece o nome de dia do Juízo aquele em que o mundo se deixa que aquele em que o mundo se acaba. Quanto mais que também se acaba o mundo para quem acaba com ele. Como cada um de nós tem o seu mundo, o universal acaba com todos, o particular acaba com cada um. E que muito que se vejam sinais do dia do juízo em uma alma para quem hoje se acaba o mundo! Mas, perguntara eu ao sol por que se veste de penitência? Por culpas? Não, que o fez inocente a natureza. Pois, por quê? Para os olhos do mundo por luto, para os olhos de Deus por gala. Veste-se de penitência o sol, sendo inocente, porque não há sacrifício mais formoso aos olhos de Deus que uma inocência ilustre em hábito de penitência.
   

Aquelas peles de que Deus vestiu aos primeiros senhores do mundo estavam-lhe muito mal a Adão, mas estavam lhe muito bem a Abel. A Adão estavam-lhe muito mal, porque eram hábito de pecado com penitência, a Abel estavam-lhe muito bem, porque eram hábito de penitência sem pecado: em Adão eram hábito de penitenciado, em Abel eram hábito de penitente. Esta grande diferença há entre a penitência dos pecadores e a penitência dos inocentes: que a penitência dos pecadores é remédio, a penitência dos inocentes é virtude. Não quero dizer que os atos de penitência no pecador e no inocente não sejam virtuosos sempre. Só digo que os pecadores tomam a virtude da penitência pelo que tem de remédio, os inocentes tomam o remédio da penitência pelo que tem de virtude. Donde se segue que a penitência honra os pecadores, os inocentes honram a penitência. A penitência honra os pecadores, por que lhes tira a afronta do pecado, os inocentes honram a penitência porque lhe tiram a mistura de remédio. Ó ditoso Batista, ó ditosa alma imitadora vossa: ambos em hábito de penitentes, e ambos honradores da penitência! Ditosos vós, que fazeis troféus de vitória os instrumentos do desagravo, e gozais a prerrogativa de penitentes, sem o desar de arrependidos! Em vós é virtude o que nos outros é remédio, em vós eleição o que nos outros necessidade. Só em vós não é remédio do pecado a penitência, sendo que só a vossa penitência poderá ser remédio do pecado. Por que ofensas não merecidas, quais são as de Deus, só se pagam com castigos não merecidos, quais são os dos inocentes. O merecimento ofendido só o pode satisfazer a inocência castigada. Oh! que grande sacrifício para Deus! Oh! que grande lisonja para o céu! Lá disse Cristo que faz maior festa o céu ao pecador penitente que ao justo sem penitência (Lc. 15). Pois, se a inocência do justo agrada muito e a penitência do pecador agrada mais, quanto agradará aquele excelente estado, que abraça a perfeição de ambos, e ajunta a penitência de pecador com a inocência de justo? Isto é o que fez o Batista hoje na circuncisão, sujeitando isenções de inocência a remédios de pecado: Et venerunt circumcidere puerum.



§ V


Por que não se há de chamar Zacarias o filho de Zacarias? O gloriosíssimo nome de Gusmão, deixado por Soror Maria da Cruz. O nome dos pais e o nome da Cruz na discrição mais que humana dos anjos do sepulcro de Cristo. Por que Soror Maria não se havia de chamar da Cruz, senão do Sacramento? A vantagem que leva em Cristo o amor que nos mostrou no Sacramento ao amor que nos mostrou na cruz. O estado religioso e o Sacramento do Altar.. A cela dos religiosos e a sepultura de Cristo.


Et vocabant eum nomine patris sui Zachariam (Lc. 1, 59). — Feito o ato da circuncisão, tratou-se de dar o nome ao menino, e queriam os circunstantes que se lhe pusesse o nome de seu pai, e que se chamasse Zacarias. Ouviu isto Santa Isabel, e disse: Nequaquam: Por nenhum caso; não se há de chamar assim. E por que razão? Por que não se há de chamar Zacarias o filho de Zacarias? Não era nome santo? Não era nome ilustre? Não era nome autorizado? Não era nome glorioso? Sim era, mas era nome de pai: Vocabant eum nomine patris sui. — E o nome dos pais, quanto mais ilustre, quanto mais glorioso, tanto menos o há de tomar quem professa servir a Deus, como professava o Batista. No nome perpetua-se a memória dos pais, na religião professa-se o esquecimento deles: Obliviscere populum tuum, et domum patris tui [33]. — E como o Batista havia de ser como foi — primeiro fundador e exemplar de religiosos, não quis  prudente Santa Isabel que tomasse o nome de Zacarias, porque não era justo que conservasse a memória dos pais no nome quem professava o esquecimento dos pais na vida. Quereis que se chame Zacarias, porque é nome de seu pai? Alegais contra vós.Antes, porque é nome de seu pai se não há de chamar assim: Vocabant eum nomine patris sui Zachariam. Et ait mater ejus: Nequaquam [34]. — Que grandemente imitado, se bem em parte excedido, vemos hoje este exemplo do grande Batista. S. Lucas, porque escrevia para a memória dos futuros, deteve-se neste lugar em contar a genealogia dos pais de S. João; eu, que falo aos, olhos dos presentes, não me é necessário deter-me em tão sabido, como também me não fora possível, em tão grandioso assunto. Muito fez quem deixou o nome de Zacarias autorizado assim com uma tiara, mas muito mais faz quem deixa o gloriosíssimo nome de Gusmão — glorioso no céu e na terra — cujo real e esclarecido sangue se teceu sempre nas púrpuras de fora a Europa, e hoje com mais glória que em nenhum outro reino — posto que com igual majestade em tantos — o vemos felizmente coroado, e veremos em imortal descendência no nosso de Portugal. Este é o famosíssimo em todas as idades, o eminentíssimo em todas as pessoas, o assinaladíssimo em todas as empresas, o celebradíssimo em todas as histórias, nome de Gusmão, e este é o que hoje vemos deixado pelo humilde da Cruz. Não sei se admire nesta eleição o virtuoso, se o discreto. Enfim, a virtude e o entendimento, tudo me parece angélico.


Quando os anjos no sepulcro de Cristo perguntaram às Marias o que buscavam, usaram de diferentes termos –segundo diversos evangelistas.  O anjo de S. Mateus perguntou se buscavam a Jesus crucificado: Jesum, qui crucifixos est, quaeritis [35] . — O anjo de S. Marcos perguntou se buscavam a Jesus Nazareno crucificado: Jesum quaeritis Nazarenum, crucifixum [36] . — Pois, se o anjo de S. Marcos chamou a Cristo Jesus Nazareno crucificado, por que razão o anjo de S. Mateus lhe chamou Jesus crucificado somente, e não falou no Nazareno? O melhor comentador dos evangelistas, o doutíssimo Maldonado, notou advertidamente que o anjo de S. Mateus apareceu como anjo, e o anjo de S. Marcos apareceu como homem: Mathaeus angelum, Marcos hominem appellat. — É do texto. Porque S. Mateus diz assim: Angelus Domini descendi! de caelo, qui dixit mulieribus (Mt. 28, 2, 5): — Um anjo do Senhor desceu do céu, que falou às mulheres. — E S. Marcos diz assim: Intrantes monumentum, viderunt juvenem sedentem (Mc. 16, 5): Entrando no sepulcro, viram um mancebo assentado. — E como o que falou às Marias em S. Marcos, era homem, e em S. Mateus era anjo, por isso o de S. Marcos chamou a Cristo Jesus Nazareno  crucificado, e o de S. Mateus chamou-lhe Jesus crucificado somente, e não falou no Nazareno. Ora, notai. Entre o Nazareno e o crucificado havia esta diferença em Cristo: que o Nazareno era nome dos pais, o crucificado era nome da Cruz; e antepor o nome de Nazareno ao de crucificado, antepor o nome dos pais ao nome da Cruz, isso fazem os anjos que são como homens; mas tomar o nome de crucificado, e calar o de Nazareno, tomar o nome da Cruz, e deixar o nome dos pais, isso fazem os anjos que são como anjos. O anjo de S. Marcos, que falou como homem da terra: Viderunt juvenem sedentem — antepôs o nome dos pais ao nome da Cruz: Jesum quaeritis Nazarenum, crucifixum. O anjo de S. Mateus, que falou como anjo do céu: Angelus Domini descendide caelo — tomou o nome da Cruz, e deixou o nome dos pais: Jesum, qui crucifixos est, quaeritis. — Oh! discrição mais que humana! Oh! eleição verdadeiramente angélica! Sei eu que as Marias ouviram os anjos, mas nenhuma delas aprendeu a mudar o nome. Maria Madalena não se chamou da Cruz, senão Madalena; Maria Cleofé não se chamou da Cruz. senão Cleofé. Não souberam deixar o nome dos pais e tomar o da Cruz aquelas Marias, porque estava este religioso primor guardado para outra, que na devoção havia de vencer as Marias, e na discrição igualar os anjos.


Mas, assim como em casa de Zacarias se levantou questão sobre o nome do Batista, assim é bem que a tenhamos hoje aqui sobre este nome da Cruz. Quem lá contradisse o nome de João foram as pessoas mais autorizadas que assistiam à celebridade da festa: Qui venerant celebritatis gratia: comenta o Cardeal Toledo. — Quem aqui impugnará o nome da Cruz será também a pessoa mais autorizada que assiste à celebridade da festa, que é, quem? Cristo Sacramentado. E assim como lá diziam que não se havia de chamar João, senão Zacarias, assim cá diz Cristo que não se havia de chamar da Cruz, senão do Sacramento. Não é imaginação sem fundamento minha, é acomodação verdadeira, tirada, com toda a propriedade, do texto. O nome que lá queriam dar ao Batista era Zacarias. E Zacarias, que quer dizer? Quer dizermemoria Domini: a memória do Senhor. Isso mesmo é o Santíssimo Sacramento da Eucaristia. É a memória do Senhor, que ele nos deixou por prendas em sua ausência: Haec quotiescumque feceritis in mei memoriam facietis [37] . — Está fundado. Agora pergunto eu: e que razão tem Cristo Sacramentado para dizer que não quer que o nome seja da Cruz, senão do Sacramento? A razão é muito forçosa, porque professar religião mais é sacramentar-se que crucificar-se. Todos os santos comumente chamam Cruz ao estado religioso; mas, com licença sua, eu digo que o estado religioso tem mais do Sacramento que da cruz. A razão em que me fundo é esta. Porque na cruz morreu Cristo uma só vez, no Sacramento morre todos os dias. O sacrifício da cruz foi cruento, mas foi único; o sacrifício do altar é incruento, mas é quotidiano.

                                                                     
A maior fineza do amor é morrer: Majorem cbaritatem nemo habet [38] . — Mas tem um grande desar esta fineza, que quem a faz não pode fazer outra. É a maior fineza, mas é a última. E como Cristo amava tão extremamente aos homens, e via que, morrendo na cruz, se acabava a matéria a suas finezas, que fez? Inventou milagrosamente no Sacramento um modo de morrer sem acabar, para, morrendo, poder dar a vida, e, não acabando, poder repetir a morte. Esta é a vantagem que leva em Cristo o amor que nos mostrou no Sacramento ao amor que nos mostrou na cruz. Na Cruz morreu uma vez, no Sacramento morre cada dia; na cruz deu a vida, no Sacramento perpetuou a morte. A Esposa, como quem melhor  as sabe avaliar, nos dirá a verdade desta fineza: Fortis est ut mors dilectio, dura sicut infernus aemulatio [39] . — O amor, se é grande — que isso quer dizer dilectio — é como a morte; e se é maior — que isso quer dizer aemulatio — é como o inferno. Notável dizer! Por que razão compara Salomão o amor grande à morte, e o amor maior ao inferno? Eu o direi. Entre a morte e o inferno há esta diferença: que a morte tira a vida, o inferno perpetua a morte. Por isso o amor grande se compara à morte, e o maior ao inferno, porque mais é perpetuar a morte que tirar a vida: tirar a vida é morrer uma vez, perpetuar a morte é estar morrendo sempre. Eis aqui a desigualdade do amor de Cristo na Cruz e no Sacramento. Competiu o amor de Cristo no Sacramento e o amor de Cristo na Cruz: o da cruz foi como o da morte, porque chegou a tirar a vida: Fortis est ut mors dilectio –o do Sacramento foi como o inferno, porque passou a perpetuar a morte: Dura sicut infernus aemulatio. — E muito mais foi perpetuar a morte que tirar a vida, porque tirar a vida é morrer num instante, perpetuar a morte é morrer toda a vida.


Eis aqui a razão porque o estado religioso se parece mais com o Sacramento que com a Cruz. Na Cruz morre-se uma só vez, no Sacramento morre-se cada dia. Sei que disse Santo Agostinho que só os mártires pagam a Cristo a fineza que fez em se deixar no Sacramento, porque morrem por quem morre por eles: Qui accedis ad mensam Principis debes similia praeparare: hoc beati martyres fecerunt. –Mas esta razão de Santo Agostinho — dê-nos licença o lume da Igreja impugna-se facilmente, porque muitas mortes não se pagam com uma só morte: Cristo no  Sacramento morre todos os dias, os mártires morrem uma só vez: logo, não pagam os mártires a Cristo no Sacramento. Pois, que diremos a isto? Digo que os mártires pagam a Cristo na Cruz, os religiosos pagam a Cristo no Sacramento. Os mártires pagam a Cristo na Cruz, porque morrem uma vez por quem uma vez morreu por eles; os religiosos pagam a Cristo no Sacramento, porque morrem cada dia por quem morre por eles todos os dias. Há quem o diga? Não é menos religioso que o exemplar de todos, S. Paulo: Quotidie morior (1 Cor. 15, 31):         Cada dia morro. — De maneira que, assim como Cristo no Sacramento inventou um modo de morrer sem acabar, para, morrendo, poder dar a vida, e, não acabando, poder repetir a morte, assim os patriarcas das religiões — e melhor que todos o Seráfico em seu divino instituto — parecendo-lhe pouco amor não morrer, e pouca morte morrer uma só vez, acharam este modo milagrosamente natural de viver morrendo, para na morte multiplicarem as entregas da vida, e na vida perpetuarem os sacrifícios da morte.


Grande lugar do proto-patriarca das religiões, S. Basílio. Fala o grande Basílio das celas das religiões mais estreitas, e diz que a cela de uma alma religiosa  êmula, é competidora da sepultura de Cristo: O cella dominicae sepulturae aemula! — Pois, saibamos que qualidades tem uma cela para tão nobre competência. Em que presunções se funda esta emulação? Que se compare a cela a qualquer sepultura, justa semelhança, porque, onde o hábito é uma mortalha, o leito um ataúde, as paredes tão estreitas e com tão pouca luz, como estas que vemos, muito há de sepultura.  Sepultura sim, mas sepultura não outra, senão a de Cristo. Por que razão? Porque nas outras sepulturas mora só a morte; na sepultura de Cristo morou a morte e mais a vida juntas. Na sepultura de Cristo esteve a vida morta e a morte ressuscitada: e tais são as vossas celas, ó religiosos espíritos:O cella dominicae sepulturae aemula, quae mortuos suscipis, et reviviscere facis: Ó cela verdadeiramente imitadora da sepultura de Cristo, pois está em ti a vida morta e a morte ressuscitada: a vida morta, porque não tem usos a vida; a morte ressuscitada, porque tem alentos a morte. — És uma suspensão gloriosa de morte e vida — se bem gloriosa com pena — onde, posta a alma nas raias do viver e morrer, participa indecisamente o mais rigoroso de ambas: insensível, como morta, para o gostoso da vida; sensitiva, como viva, para o penoso da morte. Em ti se vê multiplicado o milagre natural da fênix, sendo pátria e sepulcro quotidiano, onde se morre à vida e se nasce à morte, faltando cinzas, mas não faltando incêndios. Em ti — e com maior propriedade hoje — se vê verdadeira a metáfora dos horizontes, sendo oriente e ocaso juntamente, onde o sol, no mesmo instante morto e nascido, ressuscita a um hemisfério quando se sepulta a outro. Em ti, finalmente — com seres a melhor parte do paraíso — se vê sem fingimento a fábula do inferno, sendo cada religioso espírito um Tício em bem-aventurança de penas, que, não podendo morrer para morrer mais vezes, tem morta a vida, e imortal a morte: Semperque renascens non perit, ut possit saepe perire [40] . Não é muito que ache eu comparações no inferno ao maior sacrifício, quando no inferno as buscou a alma santa ao maior Sacramento. De um e outro se pode dizer com grande semelhança: Dura sicut infernus aemulatio. — E como o sacrifício da Religião, por ser morte perpetuada, se parece mais com o Sacramento que com a Cruz, sendo o ofício dos nomes declarara essência das coisas; parece que quem professa religião não se deve chamar da Cruz, senão do Sacramento:Et vocabant eum nomine patris sui Zachariam, hoc est, memoriam Domini [41] .


§ VI


Por que se deve tomar o nome da Cruz, e não o do Sacramento. Se no Sacramento não está corpo e sangue, senão também alma e divindade, por que se não chama corpo e alma, sangue e divindade de Cristo, senão corpo e sangue somente?


Contudo, responde Santa Isabel: Nequaquam: por nenhum caso. - E com muita razão. Por quê? Pela mesma que o persuade. Porque, se o nome do  Sacramento diz tudo o que há no estado religioso, e o nome da Cruz diz menos, pelo mesmo caso se deve tomar o nome da Cruz e não o do Sacramento. Na eleição dos nomes há uma grande diferença tomada dos fins por que se elegem: os nomes que se tomam por verdade dizem tudo, os que se tomam por vaidade dizem mais, os que se tomam por humildade dizem menos. E como a mesma humildade, que desprezou a grandeza dos nomes paternos, foi a que fez a eleição do nome religioso, por isso, com discreta  impropriedade, escolheu o nome diminutivo da Cruz, em que é mais o que se cala que o que se diz. Como respondo a Cristo Sacramentado, com o mesmo nome do Sacramento quero confirmar a resposta. O Sacramento do altar chama-se corpo e sangue de Cristo. Esse nome lhe deu o mesmo Senhor: Hoc est corpus meum: hic est calix sanguinis mei [42] . — Pergunto: E há no Sacramento mais alguma coisa? Há alma e há divindade. Pois, se no Sacramento não só está corpo e sangue, senão também alma e divindade, por que se não chama corpo e alma, sangue e divindade de Cristo, senão corpo e sangue somente? Porque este nome deu-o Cristo ao Sacramento na hora em que se quis mostrar mais humilde. A hora em que Cristo se mostrou mais humilde foi a mesma em que instituiu o Sacramento de seu corpo e sangue, dispondo aos apóstolos com a pureza do lavatório, e a si com a humildade de lhes lavar os pés. E como Cristo pôs o nome a este mistério com advertência de humildade, por isso declarou somente o menos que nele havia, que os nomes que compõem a humildade sempre falam mais do que dizem. O que diz é corpo e sangue, o que cala é alma e divindade. O mesmo passa no nosso caso, que, ainda que se não tomou o nome ao Sacramento, seguiu-se-lhe o exemplo. Deixa-se o nome do Sacramento porque diz mais, toma-se o nome da Cruz porque diz menos, que se preza o verdadeiro amor do que é, e não do que significa. Baste-lhe à religião ser Cruz ex vi verborum [43] , ainda que seja muito mais per concomitantiam [44]  . Tão justo, foi logo deixar-se o nome de Zacarias quanto à significação como quanto à realidade: Et ait mater ejus: Nequaquam.


§ VII


As queixas da vizinhança e as queixas do parentesco. A queixa de Marta a Jesus. As queixas dos judeus ao pé do Sinai. Se Moisés era homem, por que pediam um Deus em falta de Moisés? As presenças que só por Deus se podem deixar, e as ausências que só com Deus se podem suprir. Por que não deve estar queixosa a vizinhança? De que modo Deus se agrada dos peregrinos? Conclusão. Por que chama o autor ao presente discurso Sermão das Vitórias do Impossível.


Acabou-se-nos o tema, e se me não engano tenho ponderado todas as cláusulas dele, com alguma semelhança às obrigações deste dia. Mas também vejo que reparariam os mais curiosos, em que passei em silêncio aquelas palavras Audierunt vicini et cognati, et congratulabantur ei [45] . — Confesso que não falei nestas palavras, e também confesso que as deixei, porque não achei nelas semelhança, senão muita diferença do nosso intento: Cognati et vicini congratulabantur ei. — Lá, no nascimento do Batista, diz o Evangelho que os parentes e os vizinhos estavam muito contentes e agradecidos; porém cá não é assim. Tão fora estão de poderem estar contentes os vizinhos e os parentes, que antes o parentesco e a vizinhança têm razão de estar queixosos. Tem razão o parentesco de estar queixoso, porque se vê a si deixado: tem razão a vizinhança de estar queixosa, porque vê os estranhos preferidos. Quando o sangue se vê deixado, por que não há de estar queixoso o parentesco? E quando as estrangeiras se vêem preferidas às naturais, por que não há de estar queixosa a vizinhança? Não se diga logo aqui: Cognati et vicini congratulabantur ei. — Acudo a estas duas queixas, e acabo.


Primeiramente digo que não tem razão o parentesco de estar queixoso, porque, quando as obrigações do sangue se deixam por amor de Deus, não é fazer ofensa, é fazer lisonja ao parentesco. Da parte de quem é deixado é sacrifício, mas da parte de quem deixa é lisonja. Tudo provo. Hospedou Marta a Cristo em sua casa, e tinha esta senhora uma irmã, a quem o texto chama sóror Maria: Et huic erat soror nomine Maria [46]  — a qual se retirou com Cristo, e assentada humilde a seus pés, o estava ouvindo e contemplando. Chegou Marta ao Senhor, e disse-lhe: Domine, non est tibi cume quod soror mea reliquit me solam ministrare (Lc. 10, 40)? E bem, Senhor, tanto vos descuidais de mim, que não vedes que minha irmã me deixou só? — Esta foi a história; duas são as minhas ponderações. Digo que Marta, na queixa que fez de Maria, ofereceu um grande sacrifício a Cristo, e Maria, na ocasião que deu à queixa, deu uma grande satisfação a Marta.


Dificulto assim. Cristo não foi o que chamou a Maria: Maria foi a que se assentou a seus pés sagrados. Pois, se a ocasião, justa ou injusta, da queixa a  deu Maria, e não Cristo, por que propõe Marta a sua queixa a Cristo, e não a Maria? Porque Marta nesta ação não pretendeu tanto dar queixas de Maria, quanto oferecer sacrifícios a Cristo. Como se dissera Marta: — Não cuideis, Senhor, que só Maria é a que faz as finezas, que eu também vos ofereço as minhas. Maria sacrifica sua devoção, eu sacrifico minha soledade: Reliquit me solam ministrare. — Ela oferece-vos o estar convosco, eu ofereço-vos o estar sem ela. De sorte que em uma ação havia ali dois sacrifícios: um de Maria, porque se fora para Cristo, outro de Marta, porque a deixara Maria. Mas destes dois sacrifícios, qual é maior: o de Maria ou o de Marta? Eu não me atrevo a dar sentença nesta causa. Só digo que, se neste lugar pregara S. Pedro Crisólogo, havia de dizer que o sacrifício de Marta era maior que o de Maria. Pergunta S. Pedro Crisólogo quem fez mais, se Abraão em sacrificar a Isac, se Isac em se oferecer ao sacrifício (Gên. 22)? Resolve que Abraão, e verdadeiramente tem a Escritura por sua parte. Pois, se Isac era a vítima, que havia de ficar morto, se Abraão era o sacerdote, que havia de ficar vivo, como era ou como podia ser que o sacrifício fosse maior em Abraão que em Isac? A razão é esta: porque Isac sacrificava a sua pessoa, Abraão sacrificava a sua soledade, Isac oferecia-se a ficar sem vida, Abraão oferecia-se a ficar sem Isac. E, segundo o muito que Abraão amava aquele filho, maior sacrifício fazia em o dar a ele, que ele em se dar a si. Bem digo eu logo que foi grande sacrifício o que Marta ofereceu a Cristo entre suas queixas, pois lhe sacrificou não menos que a soledade de Maria: Reliquit me solam ministrare.


E que Maria, na mesma ocasião que deu à queixa, deu uma grande satisfação a Marta, não há dúvida. Por quê? Porque deixar Maria a Marta, não por amor de outrem, senão por estar com Cristo, foi dizer-lhe claramente que fazia tão grande estimação  de sua companhia que só por Deus a pudera deixar, e só com Deus a podia suprir, Vendo os filhos de Israel que havia quarenta dias que faltava Moisés, por estar fechado com Deus, determinaram abalar do pé do monte, e ir-se. Foram-se ter com Arão, e disseram assim: Fac nobis deos, qui nos praecedant;Moysi enim huic viro nescimus quid acciderit (Êx. 32, 1): Arão, fazei-nos um Deus que nos acompanhe, porque não sabemos que feito é deste homem Moisés. — Linda conseqüência por certo! Dai cá um Deus, porque falta Moisés. Moisés não era homem? Eles mesmos o diziam: Moysi enim huic viro. — Pois, se Moisés era homem, por que pediam um Deus em falta de Moisés? Porque há presenças que só por Deus se podem deixar, e há ausências que só com Deus se podem suprir, Como os hebreus armavam tanto ao seu Moisés, e se viam forçados a o deixar, faziam este discurso: já que se há de deixar Moisés, só por um Deus se há de deixar; e já que se há de suprir com outrem o seu lugar, só com um Deus se há de suprir. — Por isso pediam a Arão um Deus, e não outro substituto daquela ausência: Fac nobis deos, qui nos praecedant. — Esta satisfação deram os israelitas a Moisés quando o queriam deixar, e esta foi a satisfação que deu Maria a sua irmã quando a deixou. Deixou de estar com ela; mas por estar com Deus: Quae etiam sedens secus pedes Domini [47] . — Não tem logo razão o parentesco hoje de se mostrar sentido ou queixoso, senão contente e agradecido: Cognati congratulabantur ei.


Et audierunt vicini. Também se não deve queixar a vizinhança de ver as estrangeiras preferidas às naturais. E por quê? Porque uma alma que por mais servir a Deus quis ajuntar a clausura com a peregrinação, necessariamente houve de deixar os naturais e buscar os estrangeiros. Uma das coisas que muito agradou sempre a Deus em seus servos foi a peregrinação. Por isso mandou a Abraão que saísse peregrino de sua pátria; por isso quis que peregrinasse Jacó em Mesopotâmia, José no Egito, e ao mesmo povo querido de Israel, porque o escolheu para si, o fez peregrinar inteiro tantas vezes e por tantos anos (Gên. cap. 12, 29, 39). E como Deus se agrada tanto dos peregrinos — que também o quis ser neste mundo — que faria uma alma desejosa de agradar muito a Deus, vendo-se obrigada à clausura pelo seu estado, e inclinada à peregrinação pelo gosto divino? Peregrinação e clausura não podem estar juntas: pois, que remédio? O remédio foi, entrando em religião, escolher um mosteiro de estrangeiras, para que viesse desta maneira a achar juntas a clausura e a peregrinação: a clausura no lugar, a peregrinação na companhia. Quem cuidaria que era possível estar juntamente em Portugal, e peregrinar em Flandres? Pois, isto é o que vemos hoje com nossos olhos.


Fala Davi da peregrinação dos filhos de Israel para Palestina, e diz assim: Cum exiret de terra Aegypti, linguam quam non noverat audivit (SI. 80, 6):  Quando o povo saiu do Egito, ouviu a língua que não entendia. — Particular modo de reparar! Se Davi ponderava a peregrinação dos israelitas, parece que havia de dizer que passaram climas incógnitos, que caminharam terras  desconhecidas. Pois, por que não repara nas terras, senão nas línguas? Por que não diz que andaram por terras estranhas, senão que ouviram línguas estrangeiras? Porque julgou discretamente o profeta que a formalidade da peregrinação não consistia tanto na mudança dos lugares, quanto na diferença das línguas. Não está o ser peregrino na estranheza das terras que se caminham, senão na estranheza da gente com que se trata:                     Cum exiret de terra Aegypti, linguam quam non noverat audivit. — Sair do Egito para onde se ouve outra língua, isso é peregrinar. E se é verdadeiro peregrinar o viver entre gente de língua estranha, bem digo eu que se viram aqui juntas milagrosamente a clausura e a peregrinação: a clausura no lugar, a peregrinação na companhia. Não deve logo de estar queixosa a vizinhança, posto que a queixa parecia justificada; antes, têm obrigação as religiosas portuguesas de se edificarem e alegrarem muito de verem — sobre um tão grande exemplo — um tão novo e particular espírito na profissão de seu estado, trocando as aparências do sentimento em motivos de parabéns: Vicini congratulabantur ei.


Temos acabado o sermão, e com ele as vitórias do impossível, que assim se chama. Dou-lhe este nome, não só por ser sermão do nascimento do Batista, com o qual provou o anjo que nada era impossível a Deus: Quia non erit impossibile apud Deum omne verbum [48] — senão por ser sermão desta profissão soleníssima que celebramos, na qual, sem haver reparado, deixo provados seis impossíveis. No nascimento do Batista venceu-se um impossível, que foi ajuntar se esterilidade com parto: Elisabeth peperit filium. — No ato desta profissão venceram-se seis impossíveis, que foram os que ordenadamente vimos em seis discursos. No primeiro, ajuntar-se a corte com o deserto. No segundo, a mocidade  com o desengano. No terceiro, a grandeza com o desprezo. No quarto, a inocência com o castigo. No quinto, a vida com a morte. No sexto, a clausura com a peregri¬nação. E seis impossíveis vencidos na terra, que devem esperar senão seis coroas ganhadas no céu? Dar-vos-á no céu, esposa sereníssima de Cristo, a corte com o deserto uma coroa de solitária entre o coro dos eremitas. A mocidade com o de se engano, uma coroa de prudente entre o coro dos doutores. A grandeza com o desprezo, uma coroa de humildade entre o coro dos apóstolos. A inocência com o castigo, uma coroa de penitência entre o coro dos confessores. A vida com a mor¬te, uma coroa de mortificada entre o coro dos mártires. A clausura com a peregrinação, uma coroa de peregrina entre o coro das virgens. Assim triunfa quem assim vence, assim alcança quem assim merece, assim goza quem assim trabalha, assim reina quem assim serve: nesta vida a Deus por graça, na outra vida com Deus por glória: Quam mihi, et vobis, etc.

FINIS












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