O sol de julho se deitava sobre o mar
de Icaraí, e o Cristo Redentor, ao longe, parecia estender seus braços sobre
todos nós, como quem guarda e abençoa.
No fim de tarde de 26 de julho de
2026, eu e minha Shirley caminhamos até a missa das 17 horas na Paróquia São
Judas Tadeu, presidida pelo Padre Carmine Pascale. A beleza da criação se unia
à beleza da liturgia: céu, mar e canto se tornavam um só louvor.
O hino de entrada, “Te Amarei
Senhor... Te Amarei...”, ecoava como promessa e entrega. O povo reunido, a
assembleia viva, respondia com fé. O ato penitencial nos lembrava da
misericórdia infinita: “Senhor que intercedeis por nós, tende piedade de
nós...” e cada voz parecia se unir ao clamor dos séculos, pedindo perdão e
esperança.
Na primeira leitura, o jovem rei
Salomão pede não riquezas, não vitórias, mas um coração capaz de discernir
entre o bem e o mal. E Deus, que vê o íntimo dos corações, concede-lhe
sabedoria. É como se o Senhor dissesse a cada um de nós: “Não busques o brilho
passageiro, mas o dom que permanece.” O pedido de Salomão é também o nosso: que
o coração seja compreensivo, que saiba governar a própria vida com justiça e
amor.
O salmo responsorial nos fez repetir
com alegria: “Como eu amo, Senhor, a vossa lei, vossa palavra!” A lei de Deus
não é peso, mas herança; não é prisão, mas liberdade. Mais preciosa que ouro e
prata, ela é luz que guia os pequeninos e sabedoria que sustenta os grandes.
Na segunda leitura, São Paulo nos
recorda que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus. Mesmo as dores,
mesmo os caminhos tortuosos, tornam-se parte do projeto divino. Somos chamados,
justificados e glorificados. Não há acaso: há providência. Não há abandono: há
promessa.
O Evangelho de Mateus nos trouxe
imagens de beleza e mistério: o tesouro escondido no campo, a pérola de grande
valor, a rede lançada ao mar. O Reino dos Céus é alegria que transforma, é
descoberta que exige entrega total. Quem encontra o tesouro vende tudo; quem
encontra a pérola renuncia a tudo. Não porque perde, mas porque ganha o que é
eterno.
O Padre Carmine, em sua homilia,
deixou transparecer a força de uma voz firme e vibrante, que parecia atravessar
o tempo e tocar diretamente o íntimo de cada coração. Não era apenas o timbre
humano, mas um eco do divino, como se o próprio Cristo falasse por seus lábios.
Suas palavras, carregadas de ternura e autoridade, nos lembravam de que o Reino
não se encontra em grandiosidades distantes, mas se revela nas pequenas
sementes de amor, na oração humilde, na partilha silenciosa. Cada frase era
como um sopro de vida, despertando em nós a certeza de que o tesouro do céu
habita no coração que se abre à graça.
O Padre Carmine iniciou sua homilia
recordando a primeira leitura, onde Salomão, ainda jovem, pede a Deus não
riquezas, não vitórias, mas sabedoria. Ele se apresenta diante do Senhor como
servo, desprendido, consciente de que governar exige mais do que poder: exige
coração capaz de discernir entre o bem e o mal. Essa súplica de Salomão nos
ensina que a verdadeira grandeza não está em impor a própria vontade, mas em
buscar a vontade de Deus, colocando-se a serviço do outro.
O padre nos convidou a refletir sobre
nossas próprias atitudes. Quantas vezes agimos como se tudo fosse “eu, eu, eu”,
esquecendo de ouvir, de acolher, de perceber que o outro também traz
perspectivas que completam as nossas. Saber ouvir é um dom, porque nenhum de
nós é capaz de compreender tudo sozinho. É na escuta verdadeira que nasce a
caridade, a justiça e a sensibilidade para caminhar juntos.
Ele nos alertou contra a tentação de
transformar até a oração em monólogo de vontades pessoais. Muitas vezes falamos
sem parar, impondo nossos desejos, sem perguntar: “Senhor, o que queres que eu
faça hoje?” A oração autêntica começa no silêncio que escuta, na humildade que
se abre ao inesperado de Deus.
O padre lembrou que o Senhor não
deseja a violência, a desigualdade, a fome ou a miséria que brotam do egoísmo
humano. Mas, respeitando nossa liberdade, Ele transforma até o mal em
oportunidade de bem. Como disse São Paulo, “tudo contribui para o bem daqueles
que amam a Deus”. Essa certeza nos sustenta e nos dá esperança: mesmo as dores
podem ser transfiguradas em vida nova.
Chegando ao Evangelho, Padre Carmine
nos conduziu ao tesouro escondido e à pérola preciosa. O Reino dos Céus é
aquilo que realmente vale a pena, aquilo que merece ser prioridade em nossas
vidas. Não percamos tempo com o que é passageiro; dediquemos nosso tempo às
pessoas, ao abraço, ao olhar, à partilha. O tesouro não está distante: está no
coração que se abre ao amor.
E concluiu com alegria: “Queridos
irmãos e irmãs, que o nosso coração esteja voltado ao céu, reconhecendo que
Deus é o maior tesouro. Ele é a pérola preciosa, o dom que dá sentido à vida.
Quem encontra esse tesouro não perde nada, mas ganha tudo. Que possamos viver
cada dia com essa sabedoria e com essa alegria: o Reino já está entre nós.”
Assim, a homilia se torna um fio
contínuo de reflexão: começa com Salomão, passa pela escuta e pela oração,
chega à esperança de Paulo e culmina na descoberta do tesouro do Evangelho.
Tudo conduz à certeza de que a verdadeira sabedoria é viver na alegria de Deus.
O Credo Niceno-Constantinopolitano foi
professado com força, como quem reafirma a fé que sustenta gerações. No
ofertório, cantamos: “A Ti, meu Deus... A Tua presença, Senhor, vem me
acalmar...” e cada palavra era súplica e entrega. O Santo ressoou como canto
dos anjos: “Santo, Santo, Santo, Senhor do Universo.”
Na comunhão, o canto nos lembrava da
pequenez que agrada a Deus: “Que eu ame minha pequenez e minha pobreza.” É na
humildade que o tesouro se revela, é na pobreza que a pérola brilha.
Beatriz e Mateus não apenas cantaram e
tocaram: eles se tornaram instrumentos vivos da graça. A voz de Beatriz, suave
e firme, parecia vir do próprio sopro do Espírito, elevando cada palavra como
incenso que sobe ao céu. O violão de Mateus, em acordes delicados e profundos,
era como o pulsar de um coração que acompanha a oração do povo. Juntos,
transformaram os hinos em pontes luminosas entre a terra e o eterno, fazendo da
música uma verdadeira epifania de amor e fé.
Ao final, o coração estava pleno. O
mar de Icaraí continuava a brilhar, mas agora parecia refletir também a luz
interior que cada um levava consigo. O Cristo Redentor, ao longe, permanecia
com os braços abertos, como quem confirma: “O tesouro está em ti. A pérola é o
teu coração entregue.”
Assim foi o 17º Domingo do Tempo
Comum: um encontro com a Palavra, um mergulho no mistério, uma celebração que
nos fez compreender que o Reino dos Céus é o maior dom e que vale a vida
inteira.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural