SALVE
A ARTE DE SELARÓN, NO BOÊMIO CORAÇÃO DA LAPA – DALMA NASCIMENTO.
18
de agosto de 2017
Agosto, terça-feira, de manhã.
Apesar do chuvisco maroto, resolvi ir ao Rio, a convite de meu filho e de meu
neto Noel, que teria uma aula de regência na Sala Cecília Meireles. Depois,
almoçaríamos num restaurante vegano. Para preencher o tempo vago, enquanto a
aula corria, meu filho levou-me às vielas da Lapa, tradicional recinto da
boêmia carioca. Ali estava a velha Lapa dos casarões do Brasil de outrora,
inseminados de legendárias histórias. Vagaroso, o carro percorria o território
de Madame Satã, tema de vários filmes, o último até com Lázaro Ramos no papel
principal.
De repente, numa rua atrás da Sala
dos nobres concertos, diviso a festiva policromia em que o vermelho grita na
Escadaria Selarón. Conhecia-a pelos jornais. Agora contemplava o mosaico de
mais de 2.000 azulejos do mundo inteiro, grudados no espelho dos degraus da
íngreme subida. Obra de arte do pintor e ceramista chileno Jorge Selarón,
excêntrica figura que, após viajar pelo mundo, encantara-se com o Brasil. E, na
Lapa, antigo berço da malandragem carioca, fixou residência até a sua estranha
morte.
Provavelmente escolhera a Lapa,
pelas possíveis semelhanças com a Montmartre francesa, dois locais meio míticos
de certo charme peculiar. Neles, o religioso e o profano se misturam, diversas
artes pontificam, além da topografia parecida com a extensa escadaria dando
acesso à região sagrada. Na Lapa, os 215 degraus levam ao Convento de Santa
Teresa. Em Montmartre, os 197 lances conduzem à Basílica de Sacré Coeur. Em
meio à conversão, em ambos, reina também a diversão. Ambientes profanos –
bares, cabarés, restaurantes, pequenos hotéis, teatros – espalham Arte, na
febricitante vida noturna e diária, tanto francesa, quanto carioca.
Apesar de Selarón, em anteriores
viagens ter conhecido a arte erudita, optou por transformar a escadaria da Lapa
em obra de arte popular. A fim de homenagear a Copa do Mundo de 1994, construiu
aquela harmonia pictórica, embora seu trabalho, ainda para alguns,
absurdamente, seja considerado "brega". Ou "Kitsch", ligado
ao mau gosto estético, segundo certos "falsos intelectuais" que
gostam de exibir o termo usado por Edgard Morin em "Esprit du temps"
(Espírito do tempo).
Entretanto, a criação de Selarón, é
louvada por consagrados ceramistas estrangeiros e enorme público do mundo
inteiro a visita, a ponto de ser recopiada no exterior. Enquanto eu lá
permaneci, totalmente fascinada, vários ônibus de turistas lançavam ao ar a
algaravia de diversos idiomas falados ao mesmo tempo tal a quantidade de
estrangeiros, mesmo numa manhã meio enfarruscada e, às vezes, chuvosa.
Contaminada pela vibração do povo,
e com meu neto, já presente após a aula, subi os primeiros degraus e fui lá
fotografada. Senti-me participante daquela multidão aplaudindo e comentando
detalhes da escadaria. E diante da produção do ceramista, constatei que a
verdadeira Arte é mesmo a junção do popular com o erudito, sem discriminações.
Mas isso é antigo. Nossos dois Andrades, Mário e Osvaldo, já mostraram tal
interação no Modernismo.
Aliás, na primeira metade do século
XIX, Victor Hugo, ao lançar as bases do Romantismo no prefácio à obra
"Cromwell" (1827), ali expusera que a Arte é a confluência do Sublime
com o Grotesco. Trocando em miúdos, para o grande escritor francês, a
verdadeira Arte congrega a erudição dos clássicos às manifestações das
“grotas”, das entranhas, das margens da cultura do povo.
Curioso é observar que a própria
localização geográfica da Escada de Selarón, nas cercanias da Sala Cecília
Meireles, traz esse simbólico recado. Sem a prevalência valorativa de uma
estética sobre a outra, o erudito e o popular convivem lá de forma harmônica.
Complementares e palpitantes – tal
qual o movimento de sístole e diástole – ambos abastecem o coração do Rio, bem
no epicentro da Lapa, para juntos irrigarem, com sangue igualitário, o corpo
artístico da cultura brasileira.
Nota:
Prezados
amigos, estou tomada pela emoção. Acabei de postar sobre a arte de Selarón, fui
almoçar e ao retornar ao computador constatei algo totalmente surpreendente.
Alguém por mim desconhecido, compartilhou meu texto e enviou-me, em menos de
uma hora vertido para belo francês. Eis abaixo a surpresa. O autor, ou autora,
nem retrato tem no face, representado apenas por simbólica folha. Agradeço ao
desconhecido, Cesvaine Vidzeme (provavelmente pseudônimo), pela leitura e
gentil tradução do meu texto:
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L'ART DE SELARÓN, au sein du coeur bohémien de Lapa -------
Mardi matin. Bravant la désagréable
bruine, j'ai décidé d'aller à Rio, à l'invitation de mon fils et de mon
petit-Fils Noël, qui devait suivre un cours de direction d'orchestre dans la
salle Cécile Meireles. Ensuite, nous avons mangé dans un restaurant végétalien.
En attendant que le cours de Noël se termine, mon fils m'a emmenée dans les
ruelles du quartier de Lapa, traditionnelle enceinte de la Bohême Carioca. Là,
se trouve la vieille Lapa à l'image des villes brésiliennes d'autrefois, marquées
d'histoires légendaires. Lentement, la voiture a arpenté le territoire de Mme
Satan, thème de plusieurs films, jusqu'au plus récent où Lazaro Ramos.
Tout d'un coup, dans une rue
derrière la salle des nobles concerts, on division les fêtes où le rouge crie
de l'escalier Selarón. Je l'ai connue dans les journaux. Maintenant, il dans la
mosaïque de plus de 2.000 tuiles du monde entier, collés dans le miroir des
marches de la montée raide. Oeuvre D'Art du peintre et céramiste Chilien Jorjge
Selarón, excentrique qui, après avoir voyagé dans le monde, se tombe avec le
Brésil. Et à lapa, ancien berceau de la racaille carioca, il a fixé sa
résidence jusqu'à son étrange mort.
Il a probablement choisi la lapa,
par les similitudes avec Montmartre Française, deux lieux à moitié mythiques
d'un certain charme particulier. En eux, le religieux et le profane se
mélangent, divers engins allouer, en plus de la topographie qui ressemble à la
vaste cage d'escalier donnant accès à la région sacrée. À Lapa, les 215 marches
mènent au couvent de Sainte Thérèse. À Montmartre, les 197 offres mènent à la
basilique du sacré cœur. Au milieu de la conversion, il règne également le
plaisir. Environnements profanes – bars, cabarets, restaurants, petits hôtels,
théâtres – répandent de l'art, dans la vie nocturne et quotidienne, à la fois
française et.
Bien que selarón, dans les
précédents voyages, ait connu l'art érudit, opou de transformer l'escalier de
lapa en œuvre d'art populaire. Afin de rendre hommage à la coupe du monde 1994,
il a construit cette harmonie picturale. Bien que son travail, pour certains,
ridiculement, soit considéré comme "Cursi" ou "Kitsch", lié
au mauvais goût esthétique, selon certains pseudo "intellectuels" qui
aiment afficher le terme utilisé par Edgard Morin dans "Espirt du
temps" (Esprit du temps)
Entre-temps, la création de
selarón, est louée par des potiers étrangers et un immense public du monde
entier la visite, au point d'être recopié à l'étranger. Tandis que je suis
resté, totalement fascinée, plusieurs bus de touristes ont à l'extérieur de la
plusieurs langues parlées en même temps telle la quantité d'étrangers, même un
matin à moitié enfarruscada et parfois pluvieuse.
Contaminé par les vibrations du
peuple, et avec mon petit-fils, déjà présent après le cours, j'ai monté les
premières marches et j'ai été photographié. Je me sentais comme un participant
de cette foule applaudir et commentant les détails de l'escalier. Et devant la
production de céramiste, j'ai constaté que le véritable art est même la
jonction du populaire avec l'érudit, sans. Mais c'est vieux. Nos deux andrades,
Mario et osvaldo, ont déjà montré une telle interaction dans le modernisme.
D'ailleurs, dans la première moitié
du Xixe siècle, Victor Hugo, en lançant les bases du romantisme dans la préface
à l'ouvrage "Cromwel" (1827), Ali expusera que l'art est la
confluence du sublime avec le grotesque. En échange d'enfants, pour le grand
écrivain français, le véritable art rassemble l'érudition des classiques aux
manifestations des "Grottes", des entrailles, des rives de la culture
du peuple.
Il est curieux de noter que la
localisation géographique même de l'échelle de selarón dans les environs de la
salle Cécile Meireles apporte ce symbole symbolique. Sans la prévalence
valorisante d'une esthétique sur l'autre, l'érudit et le populaire y vivent de
façon harmonique. Complémentaires et passionnants – tel que le mouvement de
systolique et de diastole – les deux approvisionnent le cœur de la rivière,
bien à l'épicentre de la lapa, pour ensemble perfuse, avec le sang egalitaire,
le corps artistique de la culture brésilienne.
Dalma
Nascimento